Cachorro Quente II

Edmundo Leite

24 Janeiro 2005 | 02h03

Cachorro Quente II (*adendo a Cachorro Quente)

Olá Beer, Galfano e Pinéccio,

Sei de cachorroquentistas que, por increça que parível, parecem ter esquecido que cachorro quente é para ser comido. Desmontam o bicho inteirinho, separam os ingredientes e começam a analisar. Cortam tudo em pedaços tão pequenos que muitas vezes não dá nem para perceber que aquilo era um cachorro quente. Um dos seus passatempos preferidos é tentar saber como foram feitos o pão e a salsicha. E, como qualquer um que se propõe a saber de onde vêm as salsichas, acabam tendo algumas surpresas, nem sempre agradáveis.

Uma vez vi dois caras discutindo porque um deles falou que aquele tipo de salsicha já tinha sido usada num antigo prato que não era mais servido nos dias de hoje. O primeiro estrilou, dizendo que era um absurdo, afirmando que a salsicha só existia por causa do cachorro quente. No meio da discussão, acabaram derrubando o cachorro quente no chão e estão sem se falar até hoje.

Uma outra briga que sempre vejo é por causa de um das lanchonetes que mais vendem cachorro quente, localizada em frente a uma grande escola para adolescentes. Tinha um cachorroquentista que não suportava ver a multidão se esbaldar de cachorro quente e toda vez que passava por lá praguejava contra o dono do estabelecimento. Dizia que ele, assim como outras lanchonetes muito freqüentadas, não podia vender cachorro quente e que seus clientes (na verdade ele disse “aqueles bostinhas”) nem ao menos comer cachorro quente sabiam. Ele quase morria de raiva ao ver os meninos comendo cachorro quente misturado com outras coisas que, para ele, eram gororobas.

Não adiantou o cara da lanchonete explicar que a molecada estava com fome, que gostavam de misturar tudo, e que alguns dos que nunca tinham comido cachorro quente adoraram. Irado, esse cachorroquentista disse ao comerciante (desculpem o termo) que cachorro quente era para poucos e que era preciso entender o valor nutricional, calórico e digestivo do cachorro quente para poder comer. Até abaixo assinado para impedir a lanchonete de vender cachorro quente ele fez. Chegou a conseguir umas assinaturas, mas não deu em nada.

O pior é que esse cachorroquentista às vezes tem que passar um carão, pois muitas vezes a lanchonete é o único lugar por perto que tem cachorro quente. Assim, quando não consegue que o sobrinho compre o cachorro quente para ele, sem opção, vai até lá, compra, mas nem olha para o cara do carrinho.

O que eu ainda continuo sem entender é essa estranha lógica dos cachorroquentistas:  querem vetar algumas casas que servem cachorro quente de oferecê-lo, dizendo que elas não são dignas de servi-lo, e ao mesmo tempo gritam “SERVE CACHORRO QUENTE!!!” em todas as outras que não servem.

É verdade que existem umas lanchonetes que têm vários cachorros quentes originais feitos com antigas receitas e poucas vezes servidos, mas os deixam lá no congelador, misturado com um monte de outras coisas igualmente boas. Parece que já encontram uma fórmula para reproduzir a receita e logo vão oferecer novamente cachorro quente original, só que em nova embalagem.

Abraços,

Edmundo

(Publicado originalmente em 24/1/2005 02:03 no grupo de discussões Komuna)

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