Cenas de um vilarejo que não veremos mais

Cenas de um vilarejo que não veremos mais

Edmundo Leite

09 Novembro 2015 | 22h16

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Um caboclo descalço sentado na porta de uma casinha de paredes brancas e janelas azuis com uma cruz na porta. Um moleque segurando sua bicicleta. Homens conversando ao lado de um cavalo selado. Outro cavalo preso numa placa mais adiante, senhoras papeando no portão, meninos pelas ruas. Uma antiga igreja ao lado de um bar. No fim do caminho, um riozinho e uma pequena ponte. Bento Rodrigues, o pacato distrito da cidade histórica mineira de Mariana, nunca mais será o mesmo depois da avalanche de lama que passou pelo povoado, um daqueles típicos lugares calmos do interior do Brasil.

O carro do Google passou por lá em julho de 2012, só pela via principal, a rua São Bento, sem entrar nas outras poucas ruas do distrito. E fez aquelas que provavelmente serão uma das poucas memórias visuais que ficarão do antigo povoado.

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No meio desse clima bucólico uma imagem destoa. Num muro perto da igreja, uma mensagem escrita com cal e um pouquinho de tinta amarela pede: “EU QUERO ÁGUA LIMPA”.

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A mensagem assinada três vezes por “HOT” talvez fosse direcionada à mineradora Samarco, que morro acima represava o mar de lama que escorreu morro abaixo.

E fazem contraponto a outras imagens captadas pelo carro do Google num ponto mais acima da estrada, em frente à portaria da sede da Samarco:

“DAQUI A ÁGUA SAI TRATADA. FICA O RESPEITO PELO MEIO AMBIENTE. CONTENÇÃO DE REJEITOS. TRATAMENTO DE ÁGUA DO PROCESSO INDUSTRIAL. Barragens de Germano, Fundão e Santarém.”

Em um outdoor mais vistoso a mensagem da empresa é:

“TRANSFORMAR SUSTENTABILIDADE EM PRÁTICAS FAZ A GENTE CRESCER JUNTO.  Acesse nosso relatório anual de Sustentabilidade e veja como unimos responsabilidade e resultados.”

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Apesar dessa eficiente comunicação institucional, no caminho entre a Samarco e Bento Rodrigues, pelo menos nos registros do Google Street View, não aparece nenhuma placa ou qualquer outro tipo de aviso alertando sobre riscos de rompimento das barragens que estão bem ali ao lado, gigantescas, mas invisíveis aos olhos dos motoristas e pessoas que por ali passam.

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Foi nesse lugar pacato que numa tarde típica de Bento Rodrigues aconteceu essa cena relatada pela moradora Rosa Helena da Silva aos repórteres do Estadão.

“Um caminhão passou buzinando feito louco, avisando que a barragem rompeu. Ele foi parando e gritando: ‘Pula! Pula!’. As pessoas foram se jogando na caçamba, uma sobre as outras. “No final, o caminhão nem estava mais parando para o pessoal entrar.”