Ciclovia atropela faixa de pedestres em SP

Ciclovia atropela faixa de pedestres em SP

Atual onda ciclística deixa pedestres ainda mais desprotegidos

Edmundo Leite

08 de setembro de 2014 | 08h02

 

Uma faixa de travessia de pedestres foi atropelada por uma ciclovia na avenida Paulo VI, zona oeste de São Paulo. A faixa de pedestres sobreviveu, mas todas as suas listras brancas foram mutiladas pela via vermelha que passou por cima dela. O impacto foi tão grande que as listras ficaram espalhadas entre os dois lados do corredor para bicicletas, nove de um lado e 11 de outro. A faixa de pedestres não corre risco de vida, mas pode ter sequelas caso não passe por tratamento adequado. Segundo testemunhas, a ciclovia era conduzida pela CET, que viu a faixa de pedestres na sua frente, mas não parou de pintar e passou por cima da vítima intencionalmente. Como atenuante, a ciclovia diz que a faixa de pedestres foi socorrida por ela própria logo após a pintura. A ciclovia não quis dar declarações sobre a desfiguração das listras da faixa após o atropelamento.

#

A notícia mais ou menos fictícia acima poderia ser real e estar publicada na seção de cidades dos jornais. Basta substituir a faixa de pedestres pelo nome de uma das dezenas de vítimas de atropelamento nas ruas da cidade. A própria faixa de pedestres fotografada foi criada depois de um atropelamento na via em 2006.

Bicicleta é legal. Ciclovia também. Mas, no afã de ficar bem na fita com o lobby ciclístico que acredita que bicicleta é única solução para os problemas de transportes, a administração das cidades têm criado vias exclusivas para bicicletas sem planejamento. Como criar uma ciclovia meia boca é uma intervenção relativamente rápida, barata e dá uma grande visibilidade, a expansão dessas vias tem crescido a toque de caixa.

A foto da faixa atropelada pela ciclovia é o retrato desse fenômeno. O pedestre, que já era hostilizado por uma estrutura que privilegia os carros, agora também é tratado como um intruso nos espaços que são seus. Além de totalmente fora da lei, apesar de prefeitura estabelecer que a ciclovia é de uso misto, a pintura vermelha feita pela CET sobre a sagrada seqüência de listras brancas que permite atravessar a rua com um pouco de segurança reforça uma sensação cada vez mais comum entre os ciclistas: a de que estão acima da lei e que possuem mais direitos que os outros.

O corredor vermelho sem nenhuma contenção nesse cruzamento diz exatamente isso ao ciclista. Que ele não precisa parar nunca. A ausência de uma faixa de pedestres na própria ciclovia, para quem vem da outra faixa de pedestres ao lado, reforça a mensagem de que o pedestre não deve atrapalhar quem está ali pedalando.

> Clique aqui para ver como era a faixa antes da pintura

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.