Como os fãs do The Cult acabaram com a primeira área vip em shows de rock no Brasil

Como os fãs do The Cult acabaram com a primeira área vip em shows de rock no Brasil

Edmundo Leite

04 de dezembro de 2021 | 06h24

Nunca se tinha visto aquilo em shows de rock por aqui. Além da aguardada presença do The Cult pela primeira vez no Brasil, um pequeno detalhe nas informações divulgadas sobre o show que a banda faria em 4 de dezembro de 1991 chamou atenção dos fãs do vocalista Ian Astbury e do guitarrista Billy Duff: uma nova faixa de preço dos ingressos, mais cara, para quem quisesse assistir à apresentação bem na frente do palco no Ginásio do Ibirapuera.

Até então, shows em ginásios e estádios contavam com três divisões de áreas para ingressos: arquibancada, cadeiras numeradas e pista. E, curiosamente, os ingressos para as cadeiras eram os mais caros, com a pista ficando com o preço intermediário.

Para a aguardada apresentação do The Cult numa noite de quarta-feira, a produtora WTR resolveu inovar e tentar tirar uns trocados a mais com a criação da “pista especial VIP”. Hoje prática institucionalizada nos shows cada vez mais caros, a novidade da área VIP não agradou nada naquele fim de 1991 que musicalmente havia começado com a segunda edição do Rock in Rio no Maracanã e continuou com uma série de atrações como Ramones, Deep Purple e Bob Dylan. O show único do The Cult no Ibirapuera foi um dos últimos da temporada musical.

Preço alto – Quem quisesse ver de pertinho a performance energética do Cult teria que desembolsar quinze mil cruzeiros (Cr$ 15 mil) pelo ingresso da pista especial VIP, 50% mais caro que o do pista normal, que custava Cr$ 10 mil [De acordo com o índice Estadão, equivalente hoje a R$ 125,00 e  a R$ 84,00]. Bilhetes para cadeiras custaram R$ 12 mil [R$ 100,00] e para as arquibancadas, Cr$ 8 mil [R$ 67,00].

Mas a tentativa dos produtores de cobrar mais caro por uma posição privilegiada na frente do palco acabou com uma avalanche humana que por sorte não terminou em tragédia. À medida que o público chegava a parte de trás da pista lotava, enquanto se contavam apenas uns gatos pingados na área VIP vazia.

Das arquibancadas era possível ter uma visão panorâmica dos nada amigáveis seguranças da Fonseca’s Gang, a empresa onipresente em grandes shows e eventos, se posicionando junto às barreiras divisórias para proteger a área deserta na frente do palco. Com a horda na parte de trás aumentando cada vez mais, outros seguranças chegavam, agora não mais para ficar de braços cruzados, mas para segurar com as mãos as barreiras que começavam a ser pressionadas pela multidão de jovens roqueiros.

Mais um pouco e os seguranças tiveram que mudar de procedimento e de posição. Não bastava segurar a barreira apenas com força braçal. Sincronizados, começaram a esticar os braços sem tirar as mãos das divisórias e se abaixar um pouco, de modo que uma perna ficasse na frente e outra atrás, reforçando a barreira pelo lado contrário do público.

Percebendo que não dariam conta de conter a maré roqueira, começou-se então um planejamento para soltarem as barreiras de uma vez, como numa abertura de comportas de uma barragem. Ao grito de um líder, todos os Fonsecas com seus coletes soltaram as divisórias de uma vez e a avalanche roqueira tomou conta da área VIP para vibrar com a apresentação dos ídolos.

Foi caótico e inesquecível, como havia antecipado o título do Caderno 2 naquele dia.

 

Relembre como foi a temporada musical de 1991:

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