Harley Davidson começou num barracão em Milwaukee

Harley Davidson começou num barracão em Milwaukee

Edmundo Leite

01 de agosto de 2003 | 05h58


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Edmundo Leite

No mesmo ano de 1903 em que Henry Ford começou uma revolução automotiva com a fundação da fábrica que levava seu nome, uma outra transformação motorizada ganhava corpo num modesto barracão em Milwaukee. Foi ali que os jovens William Harley e Arthur Davidson, ambos com pouco mais de 20 anos, finalizaram a adaptação de um motor de combustão a uma bicicleta.

Se não estavam inventando a motocicleta, novidade surgida há alguns anos na Europa, e nem eram os primeiros a fazer isso nos Estados Unidos, estavam criando o que viria a se tornar um mito sobre rodas. A marca com a junção dos sobrenomes pintada na porta do barracão não demorou a conseguir seus primeiros clientes e emplacar comercialmente.

As três unidades montadas naquele ano foram vendidas por US$ 200 cada. Cinco anos depois, o empreendimento iniciado no barracão já era uma fábrica estruturada, com a produção de 450 motos.

Neste mesmo ano de 1908 começou uma tradição que viria acompanhar a marca ao longo de sua história: pela primeira vez, um batalhão de polícia, o de Detroit, adquiria motos Harley-Davidson para o patrulhamento. E em 1909 era introduzido o famoso motor com os dois cilindros em 45 graus, um ícone da marca até os dias de hoje.

O uso das motos da companhia pelas forças armadas americanas na primeira guerra deu um impulso ainda maior para o crescimento da marca. Porém, como todas as empresas americanas, sentiu o baque da grande depressão econômica dos anos 30, mas conseguiu sobreviver, enquanto a maioria das concorrentes desapareceu. Foi preciso uma outra guerra mundial para a marca voltar a crescer. Com toda a sua produção adaptada para fins militares, a Harley-Davidson produziu quase 100 mil motocicletas para os aliados combaterem na Europa.

Além das vendas para o governo, a companhia tinha outro motivo para comemorar: tornou-se o veículo preferido dos soldados, que – de volta para casa – agora procuravam os modelos civis da Harley-Davidson.

Foi nessa época que uma mudança de comportamento alterou também a imagem da marca. Até então uma atividade solitária, o motociclismo passou a se tornar uma atividade coletiva, com grupos de 20 a 30 motoqueiros dando inicio às gangues. Uma reportagem da revista Life de 1947 na qual um motoqueiro aparece sobre uma Harley com várias garrafas de cerveja vazias no chão foi a inspiração para o diretor Stanley Kramerd rodar alguns anos depois o clássico “O Selvagem” (The Wild One), com Marlon Brando no papel principal.

Mesmo não sendo uma Harley Davidson a moto pilotada por Brando no filme, as vestimentas de couro usadas por ele passaram a ser associadas à marca. Já nos anos 60, um outro filme levaria a Harley-Davidson ao estrelato: Sem Destino (Easy Rider), com Peter Fonda, Dennis Hopper e Jack Nicholson.

Já uma lenda e vendendo – mais do que uma moto – um conceito de liberdade, a empresa foi adquirida em 1969 pelo conglomerado American Machine and Foundry Company (AMF), que colocou as três letras de sua sigla na marca, para desespero de muitos admiradores. A opção dos novos donos foi de expandir o número de consumidores, apostando também nas motos leves. A experiência não deu muito certo e no fim da década de 70 a fábrica voltava a se dedicar às motos de grande porte.

O problema agora era outro, vindo de fora. As marcas japonesas entraram também no mercado das grandes motocicletas, oferecendo novas tecnologias a preço mais barato, fazendo com que as vendas da Harley despencassem. Para piorar, a qualidade das motos começava a ser questionada. Uma piada da época dizia que junto com a Harley vinha uma panela para colocar em baixo da moto, por causa dos vazamentos de óleo.

A década de 80 começou com a AMF vendendo a Harley aos antigos donos, que tiveram que recorrer ao governo para se salvar da falência. Se no passado os conflitos bélicos foram uma garantia da venda de seus produtos, a guerra agora seria travada em outros campos. Com um forte lobby político, a empresa conseguiu que o governo americano aceitasse a alegação de que os japoneses vendiam seus produtos abaixo do preço e impusesse um sobretaxa nas motos importadas.

A barreira duraria cinco anos, mas nem foi preciso tanto para a HD se recuperar. Em 1987, um ano antes do fim do prazo, a companhia deu uma demonstração de força e pediu ao Congresso que derrubasse as tarifas contra a importação das motos de grande porte pelas concorrentes.

Além de investir na melhoria das máquinas, sem perder um toque artesanal, a Harley-Davidson reforçou suas ações de marketing, voltadas agora a um público com grande poder aquisitivo que tem apreço por exclusividade. Remodelou as lojas, tornando-as tão assépticas quanto um shopping, e estimulou ainda mais o culto ao seu produto, deixando, calculadamente, a produção menor que a demanda e aumentando o mito.

(Texto originalmente publicado no Estadao.com.br em agosto de 2003)

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