Kassab: “não tem cidade que aguente…

Kassab: “não tem cidade que aguente…

Edmundo Leite

01 de março de 2010 | 15h34

O prefeito e o sofá: coreografia na chuva

Por ter assistido meio de relance a propaganda do Kassab sobre as chuvas em São Paulo, a primeira lembrança  que ficou  foi  uma imagem: a capa amarela que o prefeito vestia.  Em meio ao barulho da redação do jornal, não deu para prestar muita atenção ao que foi dito. Foquei o texto do post anterior no figurino e acabei, injustamente,  deixando de lado outros  detalhes até mais  importantes da produção.

Depois de escrever sobre lembrança  que a vestimenta me despertou,  consegui  uma cópia do vídeo  com a Central de Informações  do jornal.  A reprodução não está das melhores, mas é suficiente para  ver o grande desempenho de Kassab.

A narração, a espontainedade, a  pulsação e o timing da entrada ao vivo são dignas de prêmio. E, para não ser injusto, é preciso destacar também o trabalho de equipe daqueles anônimos sem os quais não seria possível a realização de tão excelente trabalho.   É como no Oscar, que está aí pertinho: o astro recebe os louros, mas há um porção de gente sem o qual nada daquilo que se vê na tela seria possível: produtores, redatores, roteiristas, editores, diretor,   cenógrafos, coreógrafos e, sobretudo, os coadjuvantes e figurantes.

O que seria das estrelas  de qualquer produção (até mesmo as documentais e realísticas como essa) sem esses apoios que servem de escada  ou dão a deixa para o astro principal brilhar em sua performance?

No roteiro bem amarrado exibido na premiere da semana passada, há um coadjuvante sem fala, mas cuja presença é fundamental para  a definição da complexa personalidade do personagem principal: o homem de crachá. Engenheiro, mestre de obras, supervisor?  Não importa. O crachá sinaliza que é um funcionário. Talvez seja um daqueles  bom de trabalho, pau para toda a obra, mas que apesar desua abnegação e prestatividade em alguns momentos precise de uma instrução do chefe, que mais que um mero superior hierárquico é um líder, um mestre a mostrar o caminho correto.

Consciente disso, o coadjuvante não tenta roubar a cena. Em seu silêncio,  deixa o espaço para a fala que mostra o caráter empreendedor e ativo do personagem principal:

“Porque já não tira essa… esse monte de terra aí? Se chover,  vai tudo escorregar”.

Acompanhada de um gesticulação que enriquece o texto, com as mãos alternadamente apontando  para o cenário de terra e pedras, não é difícil que nem contasse  do script e que  tanha sido feita de improviso,  no calor das filmagens, mostrando a grande capacidade do ator prefeito de melhorar um roteiro que já era bom.

Outro ponto alto do texto vem pouco depois de Kassab dizer que mais quatro piscinões estão sendo construídos na cidade:

“Estava indo tudo bem, até que veio essa chuva. Ou melhor, esse dilúvio.”

Mesmo só narrando, sem aparecer na tela, é possível  quase sentir a força incontrolável da natureza representada na voz de Kassab que põe as coisas no lugar ao frisar  “ou melhor, esse dilúvio.”

A fita vai caminhando para o desfecho e Kassab volta numa nova tomada estilo ao vivo (lembrem que a história  começou  às 10 da noite de sábado, um horário que a maioria desfruta do descanso em seus lares). Desta vez, os figurantes funcionários que já haviam aparecido no início carregando algums “bagulhos”, transportam  um enorme e vistoso sofá para cima de um caminhão.

A sincronia com a fala final de Kassab é tão encantadora quanto à do início. Se no primeiro take o que se  destacava era  uma modesta pia  em meio a outros objetos não identificáveis,  a presença do sofá gigantesco na mão dos homens de laranja lembra as grandes coreografias dos musicais de hollywood,  onde cenários e objetos também eram parte essencial da história.

E aqui, quando acaba o pouco mais de um minuto de exibição,  fica evidente a grande sacada do roteiro: o vilão que nunca aparece, mas esteve  presente durante toda a fita: a porca população de São Paulo que insiste em jogar pias e sofás pela  cidade. Assim não tem prefeito que aguente.

A íntegra do texto do programa de Kassab:

Narração de Kassab sobre imagens de chuvas em São Paulo e recorte de jornal:

“50  dias de chuva direto. Sem trégua. A maior chuva dos últimos  77 anos em São Paulo. Não tem cidade que aguente.

Kassab aparece de capa amarela em frente a um caminhão e funcionários  da prefeitura:

Sábado, 10 horas da noite. Estamos aqui na zona leste com as equipes da prefeitura combatendo as enchentes, fazendo a limpeza das ruas, acudindo as pessoas.  Tem muito serviço pra fazer: catar bagulho,  tapar buraco, remover lixo dos córregos, dos bueiros.”

Entra imagem de uma mulher:

“Está fazendo bastante”

Volta a narração de Kassab:

“Só de corregos, nós já canalizamos 42”

Kassab conversa com um funcionário em um lugar aberto, em obras:

“Porque já não tira essa… esse monte de terra aí? Se chover,  vai tudo escorregar”

Volta a narração de Kassab:

“Fizemos dois novos piscinões”

Entra imagem de uma homem falando: 

“Aqui resolveu.”

Volta a narração de Kassab:

“E tem mais quatro em contrução. Estava indo tudo bem, até que veio essa chuva. Ou melhor, esse dilúvio.”

Entra imagem de uma homem falando:

“Temporal um atrás do outro.”

Entra imagem de uma mulher falando:

“Não tem cidade que suporte isso. (barulho de trovão) Olha lá, tá vendo?”

Kassab aparece de capa amarela na frente de funcionários que colocam um sofá num caminhão:

“O momento é de união e solidariedade. Em respeito a todos que sofrem, vamos trabalhar ainda mais. E, juntos, vamos vencer essa luta.”

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PS.: Como alertou Luiz Antonio no post anterior, o  vídeo protagonizado por Kassab é uma produção do DEM, o partido Democratas, que vem se notabilizando por outras atuações de seus integrantes em vídeos.  Neste caso, utilizou o seu espaço partidário gratuito para a performance de seu principal astro.  Pelo pouco que li, parece que não é ilegal.

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