Lembranças do Penta: direto do futuro

Lembranças do Penta: direto do futuro

Edmundo Leite

30 Junho 2012 | 17h54

Brasil e Alemanha entram em campo em Yokohama

Há exatos 10 anos, a seleção brasileira conquistava a sua quinta Copa do Mundo numa noite memorável no estádio de Yokohama. Como o feito futebolístico já foi lembrado e analisado por gente que entende do riscado, recorro a lembranças mais prosaicas daqueles dias na Ásia.  A cobertura de mais de 40 dias, primeiro na Coréia do Sul e depois no Japão, foi um desafio logístico para os repórteres enviados ao primeiro mundial disputado simultaneamente em dois países diferentes. Ao final de cada jogo, além de mandar os textos e fotos, era preciso estar com as malas prontas, fazer check-ins rápidos no hotel e começar viagens de táxi, van, ônibus, metrô, trem-bala e avião para alcançar o time no próximo destino. Como a rotina de quem cobria a seleção era ficar horas de plantão no hotel e nos campos de treino, eram esses deslocamentos por cidades diferentes que permitia  conhecer um pouco da vida real dos dois países em pequenas aventuras diárias por causa das diferenças de costumes e da língua.

Por causa do fuso-horário 12 horas adiantado, um repórter de uma rádio abria as transmissões de seus boletins para o Brasil dizendo algo mais ou menos assim: “Direto do futuro, as últimas informações sobre a seleção brasileira na Copa do Mundo”. Brincadeira à parte, ele não estava errado. Naquele 2002, inovações tecnológicas que ainda estavam muitos distantes do Brasil faziam parte da rotina de coreanos e japoneses. Na Coréia do Sul, a velocidade da internet era tão grande que  mal dava tempo de perceber a troca de uma página para outra após clicar em algum link. O carregamento era instantâneo, num piscar de olhos. Celulares 3G com conexão ultra-rápida facilitavam a cobertura de onde quer que estivéssemos.

 

Antero Grecco e Luiz Antonio Prósperi em um dos deslocamentos pelo Japão

No Japão, todos os táxis já tinham GPS. Depois de muitos dias, já estávamos acostumados com as novidades, mas mesmo nas vésperas da final ainda havia espaço para assombros tecnológicos. Num dia em que acompanhava o Antero Grecco, que  precisou ficar um pouco mais no hotel da seleção gravar um boletim para a ESPN Brasil, o pessoal da TV colocou à disposição um carro para nos levar de volta ao hotel onde estava a equipe do Estadão, já que não haveria mais trens naquele horário. A motorista brasileira-japonesa perguntou o telefone de nosso hotel. Demos o número imaginando que fosse ligar perguntando o endereço, mas ela rapidamente pôs-se a dirigir enquanto mexia no aparelhinho no painel da van. Perguntamos então se ela não iria ligar para o hotel. Ela então nos contou que já havia digitado o número no GPS e que o aparelho já tinha dado o caminho. “Esse aqui tem toda a lista telefônica da Grande Tóquio na memória”, disse. “Se quiser”, acrescentou, “dá para comprar com a lista telefônica do Japão inteiro. É só digitar o número de telefone e chega-se a qualquer lugar do país”.

GPS em todos os táxis

Uma outra novidade presente em todos os hotéis causava gracejos e piadas entre todos: os vasos sanitários cheios de botõezinhos eletrônicos com diferentes recursos na hora das necessidades mais privadas. Com as instruções nos incompreensíveis ideogramas, era prudente não se arriscar e fazer testes antes de se sentar para evitar surpresas.

Privada tecnológica

Além das novidades tecnológicas, os costumes também causavam impacto. Numa corrida passagem pela gigantesca estação ferroviária central de Tóquio, um pequeno salão de cabeleireiro chamou a atenção. O preço do serviço  era pelo tempo gasto no corte: mil yens por cada dez minutos.

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Não lembro a quanto era o valor em real ou dólar na época. Mas depois ficávamos a imaginar se o absurdo corte de cabelo de Ronaldo antes da semifinal com a Turquia não teria acontecido num desses salões. Se num improvável passeio pela cidade o craque, sem dinheiro no bolso e não reconhecido pelo barbeiro, teve que sair do salão sem completar o corte.

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