Livro mostra olhar feminino de dentro dos Novos Baianos

Livro mostra olhar feminino de dentro dos Novos Baianos

Edmundo Leite

10 de fevereiro de 2021 | 08h16

Novos Baianos numa granja que alugaram em São Paulo, 1973 – Acervo Estadão

Marília Aguiar era uma bem encaminhada estudante de jornalismo em 1969 quando foi incumbida pelo seu chefe Massao Ohno a representá-lo na festa de lançamento do filme ‘A Mulher de Todos’, de Rogério Sganzerla. Além de figuras do cinema, estavam na festa numa boate na Alameda Santos alguns artistas baianos que circulavam por São Paulo desde que se apresentaram num festival da TV Record. Alguns dias depois, a trupe baiana estava toda alojada na confortável casa da família de Marília no Alto da Lapa. Mais alguns dias, estavam todos expulsos da casa e Marília largou família, namorado, faculdade e estágio para cair na estrada com os Novos Baianos.

Com a narrativa do início de seu relacionamento com Paulinho Boca de Cantor, um dos fundadores do grupo, Marília começa a contar no livro Caí na Estrada com os Novos Baianos’ a aventura que a levou para o carnaval sem fim que foi a trajetória do conjunto naqueles anos setenta de moradia coletiva, futebol, maconha e música.

As memórias das andanças de Marília, que começam no carnaval de Salvador de 1970 e passam por cidades do interior baiano, uma casa de frente para o cemitério Chora Menino no paulistano bairro Imirim, um apartamento em Botafogo e o mítico sítio Cantinho do Vovô, no Rio, acrescentam uma nova perspectiva para a história dos Novos Baianos já contada em livro por outros integrantes do grupo.

Desta vez o olhar feminino salta das páginas. Marília conta histórias que detalham as alegrias de uma mulher jovem viver num ambiente libertário e de efervescência cultural ao mesmo tempo que as questões práticas, principalmente com a criação dos três filhos que teria com Paulinho, começam a se impor no dia a dia, como os partos dela e da amiga de peito Baby Consuelo e os cuidados com as crianças.

“Viver em comunidade no Cantinho do Vovô era o melhor dos mundos para muitos de nós, mas não para todos. Havia regras explícitas ou veladas, questionamentos e até mesmo reprovação de comportamentos e atitudes. Assim como acontece em qualquer família tradicional, nós também convivemos com o detestável costume de julgar, rotular e tentar impor convicções. Todas as pessoas, moradoras do sítio ou não, e tudo o que faziam acabavam recebendo o crivo de “careta”, “por fora”, ou “o quente”. Ter uma empregada ou uma babá, nem pensar. Era careta. Abrir conta em banco? Coisa de careta…”

Machismo e homofobia – Apesar da liberalidade, o machismo e homofobia também faziam parte da rotina dos hippies baianos, “vindas da parte de alguns, mas com a cumplicidade de outros”, conta Marília. “Certa vez, chegaram a interromper abruptamente um show que estavam fazendo na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, porque se incomodaram com os trejeitos efeminados de um argentino que dançava bem próximo do palco e contagiava a plateia em sua performance.”

O machismo dava as caras em diversas situações, como na divisão das tarefas domésticas e num sorteio para saber em nome de quem os carros comprados pelo grupo seriam registrados e só os  homens da comunidade foram incluídos.

“Lembro também de outras situações vividas com eles que me incomodaram. Qualquer ambição profissional nossa, das mulheres, não era considerada importante e não era incentivada. A única concessão que faziam era para a Baby, por ser a maravilhosa cantora do grupo e porque precisavam de sua voz potente. Ser apresentada por eles como a mulher do Paulinho me constrangia. Eu não queria ser reduzida a só isso. Porque não dizer apenas meu nome? Não se referiam aos homens como maridos de alguém. E ainda tínhamos que ouvir os comentários e julgamentos preconceituosos que eram feitos às vezes por eles, como se vivessem na velha família provinciana do século passado.”

Outro desconforto narrado por Marília em meio às histórias divertidas e anedóticas vividas pela banda são algumas das figuras trazidas pelos homens para o convívio da comunidade.

“Toda vez que algum dos Novos Baianos foi detido, amizades duvidosas foram feitas dentro das prisões… Só gente da pesada! Como sabiam nosso endereço, quando saíram da prisão vieram direto para a nossa casa…  Nas inúmeras festas no sítio com nossos amigos, jogadores profissionais de futebol e artistas famosos dividiram o espaço com bandidos. Tudo junto e misturado! Eu não gostava da proximidade dos assaltantes com nossas crianças nem do comportamento abusivo que eventualmente mostravam ter com as minhas amigas. Até me esforçava para pôr em prática o mandamento, então bastante difundido entre nós, que diz que é preciso amar igualmente todas as pessoas. Não deu pra mim”.

Televisão no sofá – Mas o que realmente não deu para Marília foi ver os filhos sofrendo com a vida nômade e comunitária quando começaram a ficar maiorzinhos. Num comovente relato sobre a decisão de deixar de morar com o grupo, Marília conta como as crianças estavam sendo afetadas pelo estilo dos Novos Baianos.

“Maria, agora com cinco anos queria ir para a escola. E todo dia reclamava do constante cheiro de maconha dominando o ambiente. Tinha medo de trazer alguma criança da vizinhança para brincar, porque dizia que o cheiro dos cigarros era esquisito e elas perceberiam. Maria ficava procurando baganas e sementes pela casa, se antecipando a possíveis flagrantes das amiguinhas. Além disso, ela sentia falta de comodidades que para nós eram impossíveis. Dizia que queria assistir à televisão sentada num sofá. E ter muitas gavetas cheias de roupas! Gil, com três anos, estava desenvolvendo um tipo de fixação que me preocupava. Em todos os lugares que a gente ia, ele se sentava no chão, se cercava do que estivesse por perto – jornais, almofadas, algum objeto ou brinquedo -, perguntando se agora ali era a sua casa.”

João Gilberto – Apesar da sinceridade de Marília com alguns  dos desconfortos nos anos de novos baianos, o tom do livro não é de rancor nem de reclamação. Estão lá também as felizes memórias da criação das músicas – algumas inéditas – a farra e o companheirismo afetuoso das viagens, os carnavais nos primeiros trios-elétricos gigantes na Bahia, personagens desconhecidos que rendem um capítulo, como a mãe de um dos integrantes da trupe e, é claro, João Gilberto, que rouba a cena em qualquer relato em que é incluído e que foi quem deu o nome à menina de Marília e Paulinho quando a criança ainda não tinha um. “Certa noite o João Gilberto pegou o violão e cantou, olhando para ela: “Não compreendo por que seu nome não é Maria. Tudo é bonito em você, tudo é encanto e poesia. Não compreendo porque seu nome não é Maria.” 

Caí na Estrada com os Novos Baianos, Marília Aguiar, Editora Agir

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