Memórias do bunker: Glauco e Henfil

Memórias do bunker: Glauco e Henfil

Edmundo Leite

12 de março de 2010 | 17h08

Trabalho de Glauco premiado no 4º Salão Internacional de Humor de Piracicaba em 1977

Traço rápido de Henfil: influência

A semelhança entre os dois trabalhos acima não é mera coincidência. Henfil foi a maior influência de Glauco, tragicamente assassinado no refúgio onde morava, próximo ao Pico do Jaraguá. “Estou falando com Deus, pensava, quando conheci o Henfil. Os Fradinhos, aquele traço todo solto, o uso do palavrão – o trabalho dele era um avanço muito grande“, declarou Glauco no texto que conta sua trajetória no site de sua igreja.

O primeiro contato entre o discípulo e o consagrado cartunista do Pasquim e de outras publicações aconteceu em 1977, quando Henfil integrava o júri da quarta edição do Salão de Humor de Piracicaba. Um dos trabalhos premiados foi um cartum de Glauco sobre um censor desempregado em depressão. Na edição do ano seguinte, novamente com Henfil no júri, um outro trabalho de Glauco seria premiado no salão. Desta vez, com soldados da repressão como personagens principais.

Cartum de Glauco premiado no salão de 1978

Mais que a semelhança do traço e do humor, a afinidade em espezinhar o regime ditatorial que dava sinais de amolecimento naquele fim de anos 70 fez com que Henfil logo trouxesse o jovem cartunista para o seu círculo de amizade.

E entrar para o círculo de amizades de Henfil não significava apenas conversas em salões de humor ou encontros eventuais. Henfil, como já fizera com outro jovem promissor, o Laerte, levou Glauco para morar em seu amplo apartamento no número 419 da rua Itacolomi, no bairro de Higienópolis em São Paulo. Ao time de moradores logo se juntariam os cartunistas Angeli e Nilson.

Sim. Isso aconteceu. Por um bom período, Henfil, Glauco, Angeli e Laerte viveram sob o mesmo teto. Detalhes dessa insólita convivência estão narrados em “O Rebelde do Traço – a vida de Henfil”, biografia escrita por Dênis de Moraes lançada em 1996 pela José Olympio Editora.

A vida no “bunker”, como o apartamento da Itacolomi foi apelidado, parecia a de uma república socialista, conta Dênis no livro. Henfil era paternalista ao extremo com seus seguidores e queria inclusive moldar o trabalho deles em treinamentos supervisionados pelo guru.

“…  Sentavam-se na prancheta e desandavam a criar. Daqui a pouco, uma voz severa ecoava:

– Solte o braço!

Henfil ensinava-lhes  truques, corrigia falhas e implicava…

… No afã de guiá-lo, Henfil exigia de Glauco uma resignação de tailandês. Pedia-lhe que prenchesse uma folha de papel com risquinhos de caneta. Se o ritmo estivesse lento, segurava-lhe o braço e repetia:

– Vamos, continua de onde parou. Pensa, fala um e faz um risquinho. Pensa, fala dois e faz outro risquinho…”

Quem o visse agir daquele modo poderia concluir que não levava fé nos discípulos. Muito pelo contrário…   …Venerava o cartum de Glauco no qual  um homem preso na parede por argolas de ferro cutuca, com a ponta do pé, a bunda do carrasco.

Cartum de Glauco venerado por Henfil

Mas o bunker da Itacolomi não se resumia a trabalho, como conta Dênis de Moraes. “Se não bastasse, Henfil no bongô, e Glauco, na guitarra elétrica, completavam-se em noitadas de jazz.”

Em meio a projetos mil na agência alternativa Oboré – de revistas a panfletos sindicais e até a tentativa de criar uma versão nacional do grupo inglês Monty Phyton na televisão – “Henfil, Glauco, Laerte, Nilson e, por um tempo, Angeli, embrenhavam-se pela noite paulistana. Empurravam-se, gozavam-se mutuamente, imitavam o jeito de andar de um amigo ausente, mexiam com uma louraça, confidenciavam aventuras amorosas, azaravam.”

O clima de farra que reinava no bunker pode ser visto nessa tira de Laerte desenhada muitos anos depois:

Tira de Laerte

Glauco várias vezes ajudou Henfil a se livrar de pequenas enrascadas. Como na vez que Henfil marcou com uma garota, em cima da hora, preferiu ir ao cinema com uma morena estonteante que conhecera num comitê eleitoral do MDB.

“…Encarregado de limpar a barra de Henfil, Glauco, com aplicação a toda prova, improvisou solos de guitarra, mostrou seus desenhos e serviu drinques. No final, a moça decidiu não perder a viagem – e dormiu com ele.

Por essas e outras, Henfil contava com a integral solidariedade de Glauco.”

O lado místico de Glauco,  que anos depois resultaria na fundação de sua própria igreja, era motivo de chacota de Henfil, que ridicularizava Glauco e Nilson por lerem os ensaios esotéricos de Carlos Castañeda: “Vocês são uns alienados! perdendo tempo com superstição”.

Glauco deixou o ninho da Itacolomi no segundo semestre de 1979, queixando-se do excessivo paternalismo de Henfil em relação ao seu trabalho. “Eu me senti bloqueado com as cobranças dele e achei melhor em afastar”, declarou no livro de Dênis.

Apesar do desconforto com esse traço da personalidade de Henfil, Glauco – assim como os outros três cartunistas – sempre demonstrou gratidão ao mestre. Quando Henfil morreu, no início de 1988, Glauco e Laerte o homenagearam no número 5 da revista Geraldão:

“Éramos um grupo de desenhistas, e a intenção foi produzir em conjunto, que nem uma oficina. Funcionou bem durante um tempo, suficiente para a gente se apaixonar uns pelos outros, e depois desandou, como as paixões desandam às vezes. (…)  Mas a gente aprendeu paca com o Henfil. Tipo intensivo madureza. Aprendeu que o traço tem que obedecer às idéias, e não o contrário. Que tem hora de ficar sério e hora de esculhambar a seriedade. Que um traballho bom vai fundo e mexe com as pessoas.”

Cacique Jaraguá

Com o texto acima é fácil entender como Glauco era capaz de tirar sarro até mesmo de sua fé. O Cacique Jaraguá, entidade venerada em cânticos nos rituais de sua “Céu de Maria”, virou um hilário personagem que volta e meia aparecia nas tirinhas da Folha.

Inspirado pelo cenário de onde podia ver a cidade de longe, Glauco criou um cacique falastrão que conta vários tipos de lorotas sobre uma São Paulo de tempos imemoriais para um pequeno índio, sempre com o caos atual de  São Paulo como gancho.  As chuvas que castigaram a capital foram a tônica da última série do cacique, publicada entre o fim de fevereiro e esse início de março.

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O fascínio pelos índios, sua cultura e misticismo, além da fundação de sua igreja em São Paulo, fez com que batizasse os filhos com os nomes indígenas Ipojucam e Raoni.

O caminho para o Daime, disse no texto “Os traços do espírito” publicado no site do Céu de Maria, veio através dos sonhos,  inspirado nos ensinamentos do guru  Carlos Castañeda:

“Através das instruções dele passei a sair do corpo e a comprovar que estive em certos lugares – perdi muito tempo com isso. Eu ia lá na frente da redação do jornal, sonhando, ia lá e decorava o número do poste, numa plaquinha. Acordava e ia correndo ver – estava lá! Passei uma época obcecado em convencer minha razão”. Foi quando sonhou com o Padrinho Eduardo, que ainda não conhecia. No sonho um índio dizia, dirigindo-se a uma multidão diante dos dois – olha, é ele quem vai levar vocês. Acordou achando que tinha sonhado com Dom Juan Matus, o feiticeiro yaqui de quem Castañeda foi aprendiz. “Parecia um inca – um narigão, baixinho, atarracadinho… nunca esqueci aquele véinho.”

Como um coronel Kurtz que adentra ao coração das trevas, Glauco via na floresta mais que um refúgio de paz e sossego. Misturando misticismo, curandeirismo e ecologia, pregava  num discurso semelhante ao que pode ser visto atualmente nos cinemas, entre os navis da fictícia Pandora de Avatar:

“O Daime é uma floresta concentrada. Quando entrei na mata pela primeira vez senti que era habitada, cheia de seres espirituais. Cada árvore derrubada tinha uma energia espiritual que não vai mais poder ser aparelhada. Mas acho que o Brasil ainda tem muita mata, dá para a gente acordar, para segurar esse povo.”

***  “O Rebelde do Traço – A vida de Henfil”, livro de Dênis de Moraes de onde foi tirada a maior parte das informações desse post não está mais diponível nas principais livrarias, mas pode ser encontrado no site Estante Virtual.

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