Musica sustentável? A resposta de Alana

Edmundo Leite

21 de março de 2010 | 13h15

A cantora Alana Cal enviou esse texto sobre o comentário feito a respeito do artigo dela na revista Billboard. Republico aqui:

Olá Edmundo.

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer pelo enfoque dado ao meu texto sobre música sustentável. Senti-me lisonjeada de verdade.
Quando li sua crítica, só senti saudade de um tempo que não vivi. Não fiz parte de uma geração que curtiu o sexo livre, que pôde pegar sol em horário que quisesse, que não se preocupava com o que comia.

Faço parte de uma geração em que roqueiro quebrar quarto de hotel está fora de moda. Em que a maioria dos roqueiros punk são veganos. Mas as músicas de Bob Marley discutindo a política e a sociedade e John Lennon pregando a união dos povos ainda me invadem a mente. Michael Jackson em Earth Song em 96(e em outras) já fazia um apelo gritante em prol da natureza.

Quem um dia poderia imaginar que teríamos um presidente americano negro? Que o casamento homossexual seria aceito judicialmente?

Música sustentável não é um tema surpresa nem novo. Pois ele vem sendo abordado há tempos em revistas de respeito no mundo inteiro. Inclusive em 2008 uma outra revista sobre música no Brasil (Rolling Stone) fez uma matéria seríssima sobre madeira certificada, questionando os fabricantes de instrumentos, principalmente a Gibson e a Fender.

Claro que música é diversão. Se ela fizer bater o pezinho, fizer chorar, dançar, já fez seu papel. Mas o artista hoje é lider em sua palavra pois tem sua cara na TV e sua palavra sendo ouvida por gerações com pensamento em formação num momento do mundo em que isso é de grande importância.

Eu também quero não me preocupar com nada disso. Quero ser desencanada e só me preocupar em fazer música e tocar. Mas hoje é uma questão de NECESSIDADE, não futilidade. Daqui a vinte anos, talvez você mesmo tenha que se preocupar com a energia gasta no seu computador pra escrever o seu texto.

Você tem filhos? Eu não. Se a diferença é tão gritante da geração de meus pais para a minha. Talvez da sua para a minha, (não sei sua idade), tenho medo até de pensar do que vai ser daqui a vinte anos.

Quem diria que do que Julio Werne escreveu em 20 Mil Léguas Submarinas, sairia um submarino? E que muitos dos aparatos de Starwars virariam realidade?

O que muita gente chamou de ingenuidade no passado…eu daria outro nome: eram visionários.

Um grande abraço. E obrigada mais uma vez.

Alana.

# Música sustentável?

Maniqueísmo ecológico

Como escrevi no primeiro texto, é louvável que as empresas busquem formas de causar o menor dano ambiental em seus processos de fabricação.

Mas  quando a  ingenuidade se mistura com a militância, como no caso do artigo da Alana, o resultado quase sempre é esse maniqueísmo que só consegue separar as coisas entre os maus (aqueles que querem destruir a floresta de qualquer modo qual vilões de filmes da Xuxa e do Avatar) e bons (mocinhos e mocinhas abnegados que compram violão de madeira certificada  e acham que estão contribuindo para um mundo melhor, apesar de não ligarem  como são feitas se as tarrachas,  cordas e outros acessórios do instrumento).

Chamar artista e ecologista de ingênuo é elogio, como pode se  ver no educado texto da Alana. Eles adoram porque é a deixa para começarem  o tradicional discurso de sonhos de um mundo melhor e outros chavões que fazem a cabeça de muitos. Ainda mais se leram numa revista gringa descolada – no original, e não numa tradução –  que instrumentos certificados são a nova tendência entre os artistas do primeiro mundo.

A questão ambiental  é complexa e as soluções passam longe de atitudes individuais, como querem fazer crer alguns. Mas não é por isso que as pessoas devem deixar de ter suas preocupações em fazer coisas bacanas, como separar o lixo nas especificações corretas, mesmo que a prefeitura não faça nada e jogue tudo no mesmo lugar.

Esse discurso ecológico rasteiro pegou de tal forma que aí surgem atitudes como essa da Alana, que cobra dos colegas um postura igual a sua.   Lembra aquelas velhas patrulhas ideológicas que já tiveram grande protagonismo no meio artístico brasileiro e que cobravam uma postura daqueles artistas que – por critérios muitas vezes injustos –  consideravam alienados.

Como hojé é o Dia Mundial da Água, aqui vai um exemplo do como esse engajamento artificial pode produzir coisas artisticamente inferiores a outras não engajadas.  Usar critérios ecológicos para avaliar um artista e uma obra é um desserviço aos artistas, ao público e até ao meio ambiente e à causa ambiental.

Todos artistas que aparecem no vídeo abaixo, produzido em 1985 na cola do megasucesso “We Are The Word”, fizeram coisas bem melhor quando não estavam preocupados com causa alguma, ou quando estavam – até mesmo com causas ambientais – e fizeram uma criação sincera em cima desse sentimento.

Outro exemplo de engajamento ecológico em que predomina essa visão simplista e maniqueísta da questão:

Apesar dos dois exemplos acima, isso não significa que a militância ecológica não tenha produzido boas obras artísticas. Há vários trabalhos de qualidade sobre o tema, que vão de Midnight Oil a Tom Jobim, passando por vários estilos e épocas. Quando der tempo incluo alguns por aqui. Sugestões são bem-vindas.

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