No Orkut, torcedores assumem vandalismo

Edmundo Leite

19 Julho 2005 | 16h53

Edmundo Leite

São Paulo – Pouco depois dos tumultos da madrugada de sexta-feira, já era possível ler na internet alguns relatos de torcedores do São Paulo que estiveram na avenida Paulista para festejar o título de tricampeão da Libertadores, mas que acabaram presenciando ou, em alguns casos, participando ativamente das cenas de violência que tomaram conta da comemoração.

Enquanto uns aproveitaram os fóruns de discussão ligados ao time e sua torcida no site Orkut para condenar a violência, tanto da parte dos torcedores como da polícia, outros não hesitaram em admitir publicamente que destruíram e saquearam bens públicos e estabelecimentos comerciais. “Tinha é que saquear tudo mesmo. Eu mesmo saqueei umas 3 banca (sic). Estou cheio de DVD, revista, cigarro”, escreveu sem pudores, morais ou gramaticais, Phelipe Meschiatti num tópico intitulado “Paulista vs Independente” na comunidade “Torcida Independente”, com 9.588 participantes cadastrados.

A justificativa para os saques, nas palavras de Phelipe, que também participa da comunidade “Eu amo a Paulista”, foi a truculência dos policiais. Chamando-os de “coxinhas”, Phelipe diz que a Tropa de Choque “foi dizimando tudo o que encontrava pela frente”. Após apontar a violência policial como causa dos tumultos e admitir os saques, Phelipe termina sua curta explanação atribuindo à conquista do título um aspecto redentor sobre a destruição na mais famosa avenida da cidade e glorificando implicitamente o caráter beligerante da torcida organizada. “O que importa é que somos tri. Independente, a mais temida do Brasil!”

Reprodução/Orkut

O autor do tópico de discussão, André, que incorporou ao seu sobrenome virtual o nome da torcida e a sigla do clube, havia dado, na mensagem inicial, o tom que seria adotado por Phelipe e outros participantes. “Eu assumo, quebrei também, tudo por causa da incompetência dos ‘coxinha’. Sei que não é certo, mas foi a revolta dos torcedores, porque esperamos 11 anos e quando somos tri não podemos comemorar”, escreveu André em seu relato de caracteres maiúsculos e banguela de algumas letras. Outro participante da discussão, que assina como Nefasto e tem em seu perfil pessoal o símbolo do time e as palavras de ordem da torcida, participou da discussão dizendo que “tem que quebrar tudo mesmo. Estava tentando até arrastar uns carros mas foi osso.”

Reprodução/Orkut

Em outra comunidade, a G.E.R.C. Tricolor Independente, a discussão “Bombas de gás na Paulista, quem estava lá?”, também apareceram relatos de saques: “Muito louco, tudo destruído. Roubei até uns chocolate (sic). Valeu, agora é o mundial”, escreveu Gabriel Fernandes, reprimido logo em seguida por Walter Silva: “Imagina se é a loja do teu pai lá, mano”. Walter, no entanto, admitiu que conclamou o enfrentamento com a polícia: “Se é para fazer merda era para ser em cima da polícia. Eu desci do carro, tentei agitar uma galera para subir ali pela Pamplona, mas não dava. Tinha muito cabeça de pinico. Agora vem um mané desse falar que levou chocolate. Pior que nem lá devia tá.”

Reprodução/Orkut

A exaltação do vandalismo, no entanto, não foi a tônica de todas as mensagens. Na maior parte delas, o repúdio à violência se misturava com vários tipos de relatos de vítimas da polícia. “Os coxinhas me pegaram sozinho indo para o carro, perto da Gazeta. Já não estava rolando treta nenhuma lá.. Aí os caras me espancaram”, contou Daniel Graça Orosz. “ Fiquei zuado demais. Fui de resgate para o Servidor Público Municipal da Vergueiro, onde tinha um monte de são-paulinos sendo atendido. Tomei ponto perto da boca, fiquei com dois dedos roxos (protejendo a cabeça), braços zuados e costas zuadas.”

Os distúrbios na Paulista ainda foram abordados em outros tópicos do grupo. Muitos escreveram textos condenando a violência, lamentando os incidentes e o estrago causado à imagem da torcida. Numa resposta que remete diretamente à justificativa postada por Orlandinho Silva (“os coxinha abusaram da violência. Aí ninguém tem sangue de barata, fomos para cima sim”), William Santos de Azevedo exortou os colegas de torcida a reavaliarem seus atos: “chega de mortes, chega de tanta violência. Molecada nova, vá ao estádio ver o espetáculo, deixe a violência de lado. Vale mais um corredor vivo, do que um enfrentador morto”.

Um outro participante que condenou o atos de violência evidenciou em sua mensagem a falta de controle da torcida sobre os integrantes das uniformizadas, em grande parte formada por adolescentes: “Espero que essa molecada que está entrando agora pare de se crescer só porque são da Independente, pois nossa torcida é mais que isso. E, diretoria, vamos por ordem nessa p… Pois hoje, além de inde… sou indi… indignado com o que ocorreu na Paulista”, escreveu André Jones.

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(Texto originalmente publicado no Estadao.com.br em 19 de Julho de 2005)