O primeiro Barão

O primeiro Barão

Edmundo Leite

21 Janeiro 2013 | 23h19

Trinta anos atrás, quando revistas de música e seus colunistas ainda tinham alguma relevância, o crítico Ezequiel Neves era uma das estrelas das páginas impressas mensalmente para informar as novidades musicais ao público. Promíscuo e hiperativo, escrevia seus textos divertidos, debochados e exagerados para quase todas as publicações do ramo.

Na edição de junho de 1982 da extinta revista Somtrês, até os leitores mais habituados ao estilo de Ezequiel ficaram curiosos após ler uma coluna de página inteira dedicada a um desconhecido conjunto de rock chamado Barão Vermelho.

“Com o volume no máximo do escândalo estou ouvindo uma fita transcendental. É coisa doméstica, gravada com um microfone só, mas que arroja uma torrente de adrenalina capaz de pulverizar quarteirões. É rock puro, demencial, imperfeito e carnívoro, trombetas selvagens anunciando o começo de um novo mundo. E, podem não acreditar, tudo é cantado em português – idioma totalmente, ou quase, avesso ao rock. Pela primeira vez em muitos meses sinto minha alma lavada, volto à adolescência, caio na pândega, o escambau!”

O som que funcionou como um elixir da juventude para Ezequiel era uma fita amadora, prévia do que viria a ser esse primeiro disco do Barão Vermelho que volta agora ao CD remixado pelos integrantes da banda e uma faixa bônus que não entrou no álbum original. Na coluna, Ezequiel dizia que sua vontade era pegar a fita daquele ensaio e tirar milhões de cópias. E, de certa forma, foi o que fez, já que assumiu a produção do disco de estreia da banda.

Sem intenção de mudar muita coisa no som de Cazuza, Frejat e cia – exceto um ou outro delírio progressivo do tecladista Maurício Barros -, Ezequiel e o diretor artístico Guto Graça Mello decidiram que as músicas seriam gravadas no sistema ‘ao vivo no estúdio’, com todos os músicos tocando seus instrumentos juntos para manter o clima da fita demo. Mas o discurso de liberdade criativa dos produtores não era tão verdadeiro assim. Na hora de fazer a mixagem e dar o acabamento às 10 faixas escolhidas, não quiseram os rapazes por perto.

O resultado não agradou muito ao ouvidos dos barões, motivo da remixagem neste relançamento três décadas depois. Se Down em mim, Ponto Fraco e Todo Amor Que Houver Nessa Vida não se tornariam hits como os que viriam depois, serviram para mostrar que o saudoso colunista não estava só delirando de entusiasmo com o carisma de Cazuza e a guitarra de Frejat. Resta saber o que Ezequiel Neves acharia da sofisticada orquestração de cordas que resolveram colocar agora como fundo grandiloquente na faixa bônus Sorte e Azar.

Caderno 2 do Estadão em 19/1/2013