Carnaval sem Carmen & Carmen sem carnaval

Carnaval sem Carmen & Carmen sem carnaval

Edmundo Leite

10 de fevereiro de 2010 | 08h06

Carmen Miranda

O Brasil viveu um carnaval diferente há exatas sete décadas. Naquele fevereiro de 1940, pela primeira vez em 10 anos, a festa não contaria com um novo sucesso de Carmen Miranda. A cantora de “Taí” e outros standarts que definiriam a cara da música popular e carnavalesca brasileira  partira para os Estados Unidos em meados do ano anterior e desde a chegada já  tinha uma rotina de estrela de primeira grandeza.

Enquanto o Rio de Janeiro  pulava o carnaval de 1940, Carmen cumpria  uma  extenuante temporada de apresentações diárias  com o musical The Streets of Paris, sua estréia na Broadway,  participava das filmagens de seu primeiro filme em Hollywood (Serenata Tropical – Dow Argentine way), e ainda fazia shows no restaurante Versailles, um dos mais sofisticados de Nova York. Ali,  narra Ruy Castro  na sua monumental  biografia da cantora, Carmen recebeu a visita do poeta brasileiro Augusto Frederico Schmidt e desabafou sobre seu primeiro carnaval longe do Brasil:

“… Hoje é sábado de Carnaval no Rio, Schmidt. Como tudo aqui é cacete e enjoado diante da lembrança de nossa cidade na folia. Estou sufocada, não sei nem como vou enfrentar o público.”

Carmen não se conformava com que os americanos passassem os três dias de Carnaval como passavam os outrs 362 – tensos, contidos, reprimidos. Então fez o melhor melhor possível: cantou tudo de que se lembrou e promovou um carnaval pessoal para ela, para o Bando da Lua e para Schmidt no palco do Versailles. E torceu para que o show, irradiado pela NBC e captado pelos rádios dos carros, ajudasse a esquentar a temperatura lá fora, de dez ou doze graus abaixo de zero. …”

A  saudade de Carmen pelo carnaval também é descrita  ao longo do livro nos relatos a amigos, a quem dizia que pretendia – nas sonhadas voltas ao Brasil – desembarcar anonimamente  no Rio no início da folia, brincar nos bailes e  ruas “de camisa de malandro e tocando cuíca” para só então, após os quatro dias de festas, aparecer publicamente para os inevitáveis compromissos que a carreira impunha.  Mas esse sonho, como outros, jamais se realizaria.  Carmen só retornaria  ao Brasil duas vezes. Uma, ainda naquele 1940, quando foi injustamente acusada por alguns de voltar americanizada. E a outra, já pouco antes do fim precoce, num breve período entre 1954 e 1955. Carnaval, nunca mais.

Sucesso e fortuna

Eu não tinha a menor  noção da dimensão artística da cantora e do sucesso americano e  mundial  de Carmen  – pensava que havia sido algo efêmero –  até ler a biografia de Ruy Castro (“Carmen – Uma Biografia”, Companhia das Letras, 2005), de onde foram extraídas todas  as informações para este post. Carmen conquistou um sucesso que jamais outro artista brasileiro alcançaria em Hollywood.  Em 1944, por exemplo, seria a mulher que mais ganhou dinheiro nos Estados Unidos, conta Ruy Castro, ocupando  o 37º lugar entre as maiores arrecadações oficiais daquele  ano e superando astros do quilate de Bob Hope, Cary Grant, Humprey Bogart e Joan Crawfard.

Mas, voltando 70 anos, efeméride que motivou esse  post, logo após o  gelado carnaval de 1940 em Nova York Carmen iniciava uma excursão  com Street of Paris pelas cidades de Filadélfia, Washington, Toronto, Pittsburgh, St. Loius e Chicago. Além das apresentações no musical, Carmen tinha shows individuais  extras em night clubs de  todas essas cidades. Até 9 de maio, contabiliza Ruy Castro, foram setenta dias seguidos com apresentações diárias do musical, sete noites por semana, com dois ou até três shows numa mesma noite em night clubs. Se achou muito, veja o levantamento feito por Ruy Castro da temporada de estréia de Carmen em Nova York, até o dia 31/12/1939:

“… Nos seis meses e meio  em que passara em Nova York – já que chegara em 17 de maio -, Carmen fizera nove espetáculos de Street of Paris por semana (a partir de 19 de junho), num total de 234 representações; quatorze aparições de meia hora no programa de Rudy Vallée; e doze semanas no Waldorf com dois shoew por noite, num total de 169 espetáculos. Total geral: Carmen subira ao palco pelo menos 416 vezes em pouco mais de meio ano nos Estados Unidos – uma média de 2,27 shows por dia, todos os dias…”

Essa rotina, em menor ou maior grau,   perduraria  pelos próximos 15 anos e seria decisiva para  a morte da cantora em sua casa na Califórnia, em 5 de agosto de 1955.

Leia trecho do livro de Ruy Castro (PDF) | livrarias | sebos |

Nas imagens e links abaixo, viaje com o Google Street View (vista da rua) por alguns lugares  que marcaram a carreira de Carmem Miranda nos Estados Unidos. [Use as setas ou mouse para “andar” pelas ruas quando abrir a janela do Google]

Broadhurst Theater (Nova York)Teatro_NY

Rua 44 Oeste, em Nova York: musical Street of Paris (1939-1940)

Shubert Theatre (Boston)teatro_boston

Rua Tremont: o 1º palco de Carmen na América.
Antes da estréia na Broadway, o produtor fez  mini-temporada de teste em Boston.

Hotel St. Moritz (Nova York)hotel_ny

Primeiro endereço de Carmen nos EUA: vista para o Central Park

Beverly Hills, Los AngelesBeverlyHills

North Bedford Drive, 616,  de 1942 a 1955,
endereço de Carmen e embaixada informal do Brasil em Los Angeles:
todo brasileiro em passagem pela cidade ia até lá. E era bem recebido.

Veja Carmen cantando “Mamãe eu Quero” e “Bambu, Bambu” no seu filme de estréia em Hollywood em 1940:

Serenata Tropical

E num programa sobre celebridades do cinema (dica do pesquisador Eduardo Entini):

Hollywood Reel

Veja a filmografia de Carmen Miranda no IMDb

Sites sobre Carmen Miranda:

Carmenmiranda.com.br

Museu Virtual Carmen Miranda

Leitura recomendada:

Por que o carnaval é no carnaval? por Carlos Orsi