Raul Seixas sem filtros em três livros de um ‘segurança filósofo’

Raul Seixas sem filtros em três livros de um ‘segurança filósofo’

Edmundo Leite

07 de dezembro de 2018 | 18h23

Quando as várias caixas fechadas chegaram ao apartamento na região do aeroporto de Congonhas no último fim de semana, Leonardo Mirio estava que não se aguentava de ansiedade. Após rasgar as fitas adesivas e abrir as embalagens de papelão, materializava-se ali em sua sala, na forma de livros impressos, o resultado de cinco anos de trabalho. A emoção não era apenas porque as dezenas de exemplares encomendados a uma gráfica traziam o seu nome como autor na capa, motivo de orgulho e expectativa a qualquer um que se disponha a publicar algo. Dividida em três volumes, a obra que o segurança patrimonial acabava de pegar nas mãos cumpria um objetivo proposto por ele em 2013, trazendo em mais de 600 páginas histórias nunca publicadas de um dois maiores ídolos da música brasileira. E não é pouca coisa em se tratando de Raul Seixas.

Tema de mais de quarenta livros, grande parte deles ilegíveis, a trajetória do roqueiro barbudo em seus 44 anos de vida (1945-1989) desta vez é mostrada numa vigorosa trilogia através de 120 entrevistas com pessoas que conviveram com Raul Seixas, num trabalho de fôlego sem igual. As 53 últimas sessões de perguntas e respostas, feitas ainda em 2018, estão no volume que acaba de sair do prelo, ‘Jamais me Revelarei’. Apesar do título extraído do verso de uma das últimas músicas de um combalido Raul, o livro revela, sim, muito do baiano que chacoalhou e deixou seu toque na música nacional.

Empreendedor – para usar um termo da moda – ligeiro, prático e atirado, Leonardo Mírio aproveitou o lançamento do seu terceiro livro para relançar os dois primeiros, ‘Raul Nosso de Cada Um’ (2015) e ‘O Eco de Suas Palavras’ (2016), montando um incrível conjunto de história oral bruta que talvez pouquíssimos brasileiros ilustres tenham igual. Os entrevistados vão desde parceiros como Claudio Roberto, autor de ‘Maluco Beleza’, músicos do naipe de Tony Osanah, mulheres, amigos, parentes, produtores, empresários, médicos e fãs que em algum momento cruzaram a vida de Raul nos diferentes períodos da sua curta e atribulada vida.

Fã de Raul desde moleque, quando viu o artista pela primeira vez no especial infantil Plunct Plact Zum da TV Globo em 1983, Leonardo, atualmente com 41 anos, botou na cabeça após concluir a segunda graduação que precisava ir atrás das pessoas que conviveram com Raul e deixar suas lembranças perpetuadas.

“Eu preciso fazer alguma coisa. Como fã, eu preciso fazer algo por ele. Eu queria mesmo me ligar à obra do Raul. Eu pensei, tem tantas coisas que as pessoas fazem. Eu falei: vou fazer um livro. Só que eu vou fazer um livro diferente. Quero fazer um livro de entrevistas onde vão surgir histórias novas do Raul. Porque tem muita gente que já tá morrendo. O que vai acontecer com essas histórias? Histórias do nosso maior ídolo do rock nacional vão estar perdidas. Então eu tenho que resgatar. Então eu gostei do resgate da história oral. De ouvir a pessoa. Querer saber qual é a percepção dela, mesmo que ela falasse mal do Raul. Eu ia assim totalmente imparcial”, explica Leonardo sobre as suas motivações.

Ex-estudante de Teologia, formado em História e Filosofia, e trabalhando diariamente em tempo integral numa calçada de uma rua da zorte de São Paulo como segurança de uma empresa de extintores, Leonardo foi a campo nas horas e dias de folga, e até mesmo durante o trabalho, por telefone, e cumpriu a missão. Inicialmente, achou que 12 entrevistas dariam conta do recado. “Comecei todo organizadinho, pensando em começar com o pessoal da Bahia. Idealizei um boneco do livro. Mas aí um entrevistado indica outro. ‘Tem aquele cara…’ Aí pensei: vai ter que ser no caos. E comecei a estender.” 

Depois que publicou o primeiro livro por conta própria, vendidos rapidamente pela internet, Leonardo já começou a pensar no segundo. “Tem muita gente para contar história. E pensei também: do primeiro livro, duas pessoas já morreram. Consegui imortalizar duas histórias que estariam perdidas. Se alguém não entrevistou esses caras acabou, não vai ter mais”.

O material bruto das entrevistas foi praticamente todo transcrito para os livros da maneira como surgiu. Pouquíssimos cortes ou edições e publicados na ordem em que as entrevistas foram feitas. “O que eu queria é que as pessoas lessem os meus livros e aquelas imagens das histórias fossem projetadas para elas.

Apesar desse desejo do autor, os leitores menos familiarizados com a história de Raul Seixas podem se confundir com alguns nomes e épocas, embora haja um breve texto de introdução antes das entrevistas. Nesses textos, além de algumas perguntas das entrevistas, é onde transparece o fã incontido, com coisas como “o agradeço por toda paciência que teve com Raul Seixas quando segurou no palco todas as loucuras do maluco beleza” na apresentação do guitarrista argentino Tony Osanah no terceiro volume da série.

Tivesse conseguido se libertar um tiquinho mais do fã que habita seu corpo e mente, poderia ter avançado mais em algumas histórias. Mesmo assim, extraiu fatos e relatos inéditos e esclarecedores em respostas bem realistas dos entrevistados, muitos deles nunca antes mencionados na historiografia de Raul.

Segurança filósofo

Com os dois primeiros livros publicados – levou dez meses entre entrevistas,  transcrição e edição de textos – Leonardo começou os trabalhos para o terceiro animado com a experiência adquirida e disposto a concluir o desfecho da trilogia em 2018. E nem mesmo três grandes percalços – roubo da moto em um assalto a mão armada, fratura de um dedo num acidente e, o pior de todos, a morte da mãe em agosto, o impediram de terminar a obra num tempo admirável, no mesmo ano em que realizou mais de 50 entrevistas. “Fui operado no dedo, fratura exposta. E continuei escrevendo com a tala no dedo da mão direita.”

Leonardo conta que planejava detalhes dos livros até durante o próprio trabalho, sem descuidar da tarefa de vigia. “Sou um segurança filósofo, porque onde eu trabalho eu posso criar. Não fico naquela postura rígida. Já passei dessa fase daquele segurança bad boy. Nem treino mais. Antes eu era bombadão. Eu trabalho com a cabeça hoje. Sou responsável no meu trabalho, mas tô o tempo inteiro criando. Eu tenho liberdade. Várias entrevistas eu fiz trabalhando. Meu escritório é virtual, ao ar livre.  Eu fico na frente da empresa , do outro lado da rua debaixo de uma árvore gostosa. A árvore da sabedoria. Fico lá pensando, filosofando, como posso aumentar minha potência criadora. Em várias empresas que eu trabalhei eu corria risco de vida. Nessa não. Quem quer roubar extintores, carregar peso? No máximo tens uns nóias para não deixar se aproximar.” 

Segundo Leonardo, o que realmente atrapalha o trabalho de um segurança é o celular. “Como a rua é sossegada, qualquer coisa estou ouvindo. Eu conheço as pessoas até pelos passos, pelo andar. Se tem alguém estranho eu já sei que não é dali. Então já fico esperto. Mesmo lendo e escrevendo, eu estou antenado.”

Em casa, relaxado e vestindo uma camiseta estampada com uma grande foto do rosto do traficante colombiano Pablo Escobar, Leonardo explica, ao ser questionado, que não vê contradição com seu trabalho de segurança: “Eu sou historiador. Eu tento ver o lado bom das pessoas. Eu gosto dessas personalidades excêntricas. Pablo era fruto de um momento histórico. Se não fosse ele haveria outra pessoa no mesmo papel. Era o zeitgeist da época.” 

Enquanto responde a essa e outras questões [no segundo encontro vestia uma camiseta do Pink Floyd] Leonardo prepara os exemplares da trilogia sobre Raul Seixas para serem despachados pelo correio, escreve dedicatórias e recebe um amigo que foi comprar o terceiro livro. As atenções agora estão voltadas para o primeiro evento de lançamento* do novo livro, mas sua cabeça já está nos próximos projetos: dois livros sobre lendas do rock internacional e montar seus cursos de filosofia para pessoas que queiram aprender. “Estou vendo se alugo um espaço. Vai ser sobre determinados filósofos que gosto. Schopenhauer, Max Stirner e quero fazer sobre o Nietzsche também.”

* Noite de autógrafos com Leonardo Mirio
8/12, sábado, 20 horas
Bodequim – Avenida Água Fria, 1381 – São Paulo, SP

JAMAIS ME REVELAREI
O ECO DE SUAS PALAVRAS
RAUL NOSSO DE CADA UM

Encomendas com o autor Leonardo Mirio: (11) 989.399.608

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