Uma curiosa revista argentina

Uma curiosa revista argentina

Edmundo Leite

17 de julho de 2010 | 08h00

Andar pelas ruas de Buenos Aires – atividade cada vez mais comum na rotina de brasileiros que aproveitam o câmbio favorável para fazer turismo na capital argentina – pode render várias surpresas.  Uma delas é descobrir que levar a sério aquela rivalidade futebolística cada vez mais incentivada – inclusive por gente que nunca conheceu um argentino pessoalmente – é uma grande bobagem.

Outra poderá acontecer numa banca de jornal e revistas. Como acontece em quase todo o mundo, os títulos nas bancas argentinas são os mais diversos, passando por jornais de várias formatos e tendências, revistas noticiosas semanais, de esportes, celebridades, música, cinema, pornografia e entretenimentos diversos.

Apesar dessa diversidade, não tem como não chamar atenção dos forasteiros um título que está em várias bancas da capital acompanhado de um conhecido símbolo de uma folha com sete pontas: a THC. E para não deixar dúvidas do que trata a publicação, abaixo do título vai a apresentação da linha editorial: “A revista da cultura cannábica”.

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O nome da revista é a sigla do nome científico da substância psicoativa encontrada na maconha, o tetraidrocanabinol. Com um fôlego surpreendente, a revista argentina sobre maconha está em sua 28ª edição. Tem edição e impressão caprichadas e distribuição nacional na Argentina e no Uruguai.

A  última edição aproveitou a Copa do Mundo para abordar o tema do doping no esporte. Faz um histórico do doping de maconha nas competições e traz especialistas  defendendo que o chamado doping com drogas sociais – como a maconha – não deveria ser punido como uso de substâncias para a melhora de rendimento.

Ainda no tema principal da edição,  a THC  fez uma entrevista com o ex-jogador Fernando “el Rifle” Pandolfi, campeão pelo Vélez e Boca Juniors e hoje líder da banda de rock “Mil Hormigas”, que admite que dava uns tapas – com moderação –  quando era atleta: “Nunca fui um fumador compulsivo porque era esportista e levava isso a sério.” Outro personagem do mundo esportivo entrevistado é o ex-goleiro do Boca Sandro Guzmán, que se converteu ao rastafari, o movimento jamaicano que crê em propriedades religiosas da maconha.

O bloco sobre futebol continua com um artigo saudando Maradona por ter convocado para a seleção que disputou a Copa do Mundo o jogador Ariel Garcé, que já cumpriu suspensão por doping de cocaína, e uma reportagem sobre os tipos de maconha cultividados na África do Sul. Na última página, um texto relembra o drama do doping de Maradona na Copa de 1994, nos Estados Unidos.

Mas as 68 páginas da edição de junho não se restringem a futebol. Tem reportagens  sobre técnicas de cultivo, controle  de pragas, estudos científicos, tipos de plantas e até uma página de culinária, com a receita de um fondue preparado com maconha.

Interativa, a THC publica duas páginas com fotos de leitores com suas plantações de maconha para consumo próprio, o que é permitido no país desde 2009.

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Nessa semana que passou, a descriminalização do consumo de maconha voltou a ser discutida aqui no Brasil depois que um grupo de renomados neurocientistas publicou uma carta aberta defendendo o plantio de pequenas quantidades para consumo próprio.

A motivação do manifesto dos cientistas foi a prisão do músico Pedro Caetano, da banda de reggae Ponto de Equilíbrio, que cultivava dez pés da planta em sua casa.  Não consegui levantar informações, mas parece que Pedro Caetano já foi liberado.

A discussão é daquelas boas, que dá para render debates interminávais entre os vários pontos de vista. Se for discutido  com seriedade nos fóruns apropriados (Câmara, Senado e Judiciário) será um avanço, seja qual for o resultado. Com a eleição por perto, o debate já deu sinais que pode esquentar. Se ficar só na guerra eleitoral, será uma oportunidade perdida.

Além de provocar o debate sobre o tema, o caso Pedro Caetano traz à memória dois casos famosos envolvendo artistas e maconha. Em 1976, num período de pouco mais de um mês de diferença,  Gilberto Gil e Rita Lee foram presos por serem flagrados com pequenas quantidades da droga. Os dois acabariam condenados – Gil a tratamento de recuperação e Rita, grávida, a prisão domiciliar após amargar um período num presídio feminino.

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Jornal da Tarde – 25/8/1976

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Jornal da Tarde – 08/7/1976

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Velhos conhecidos desde os tempos da Tropicália, Gil e Rita tinham muito mais em comum que uma prisão por porte de droga. Na turnê dos Doces Barbáros, com  Caetano, Gal e Bethânia, Gil cantava a música “Rita Lee”. Os dois exorcizariam as más lembranças de suas prisões no ano seguinte com o show “Refestança”, que renderia um ótimo disco ao vivo.

No repertório, entre sucessos dos dois artistas, como “Domingo no Parque” e “Ovelha Negra” (clique na capa do disco abaixo para ouvir todas as faixas), os dois cantaram o velho hit de Roberto e Erasmo: “…não adianta o aviso olhar, pois a brasa aqui agora eu vou mandar. Nem bombeiro pode apagar… É proibido fumar…

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# Maconha: do uso medicinal a caso de polícia

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