Rio usa estudo histórico do Estado para discutir violência

Rio usa estudo histórico do Estado para discutir violência

Edmundo Leite

08 Janeiro 2005 | 22h57


Aspectos Humanos da Favela Carioca

Aspectos Humanos da Favela Carioca

Edmundo Leite

São Paulo – Um estudo histórico sobre as favelas cariocas encomendado pelo jornal O Estado de S. Paulo na década de 60 está servindo como base para a prefeitura do Rio de Janeiro discutir o problema da violência nos morros da cidade. Publicado originalmente nas páginas do Estado em 13 e 15 abril de 1960, “Aspectos Humanos da Favela Carioca”, teve um de seus capítulos, intitulado “Delinqüência”, reproduzido na edição de quarta-feira do Diário Oficial do Município, no suplemento “Rio-Estudos”.

Sob o título “Favelas: Uma pesquisa para pensar”, o texto introdutório ao capítulo na publicação oficial do município diz que

“trata-se de uma pesquisa de campo com centenas de entrevistas, que nos permite ver a reprodução de uma série de situações que, em menor ou maior medida, se mantém até hoje: crianças e adolescentes no crime, chefes do morro, cotidiano de tiros, banalização da vida, violência sexual, violência policial etc” .

Para depois complementar:

“a leitura deste trabalho – e a avaliação de cada um – é peça fundamental e imprescindível para todos os que atuam nas favelas, os que fazem a cobertura jornalística das favelas, os que escrevem sobre as favelas e para as forças policiais que nelas agem e que, desde aquela época, eram criticadas por sua presença esporádica e não permanente.”

Mais que uma recomendação aos possíveis interessados, o trecho “…a leitura deste trabalho – e a avaliação de cada um…” , traz nas entrelinhas uma ordem do chefe da administração municipal aos seus subordinados. Conforme Joaquim Ferreira dos Santos, em sua coluna “Gente Boa”, no jornal O Globo, o prefeito avisou por e-mail a todos os seus secretários que escolherá dois deles na próxima reunião para responder perguntas sobre o estudo.

Referência

“Aspectos Humanos da Favela Carioca” foi publicado pelo Estado em dois encartes de mais de 30 páginas cada um, numa quarta-feira e numa sexta-feira de abril de 1960, quando o Rio de Janeiro vivia seus últimos momentos de Distrito Federal, pois na quinta-feira seguinte, dia 21, seria inaugurada a cidade de Brasília.

O Estudo foi encomendado pelo jornal à extinta Sagmacs (Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais). Orientado pelo padre Louis Joseph Lebret, fundador do movimento “Economia e Humanismo”, a pesquisa foi conduzida pelos sociólogos José Arthur Rios, Carlos Alberto de Medida e pelo arquiteto Helio Modesto. “Ao encomendar à Sagmacs uma pesquisa sobre as favelas do Rio, o “Estado” teve o objetivo de chamar a atenção dos governantes, administradores, legisladores, políticos e estudiosos das questões sociais para esse fenômeno tão característico dos centros urbanos do Brasil, que se manifesta de forma mais evidente no Distrito Federal”, dizia a apresentação do primeiro volume.

Apesar de trazer um rico e então inédito acervo de mapas, gráficos e tabelas, não era o aspecto estatístico que prevalecia, como já adiantava o título. “A tarefa que nos propusemos era conhecer a vida nas favelas, penetrar, quanto possível, na intimidade do favelado, descobrir suas atitudes fundamentais, suas reações e sentimentos, sua concepção de vida, de si mesmo e da cidade em que habita” , dizia a apresentação do estudo, que se desmembrou nos mais variados aspectos, como saneamento, lazer, educação, religiosidade, segurança e urbanização para fazer um panorama da situação nas favelas.

Tão logo foi publicado, tornou-se uma referência no assunto. Segundo notícia publicada no dia da inauguração de Brasília, “os suplementos divulgando a pesquisa estão sendo disputados por administradores, políticos, representantes das Associações Amigos de Bairro, bibliotecas, centro de estudos e pesquisas e editoras” .

O mesmo texto mencionava que os jornaleiros “que vendem diária e tradicionalmente o Estado no Rio de Janeiro sentem dificuldades em atender as centenas de insistentes pedidos de leitores para que obtenham exemplares das edições dos suplementos” . Para suprir a demanda dos leitores cariocas, o Estado cedeu o estudo ao jornal Tribuna da Imprensa, que o republicou no mês seguinte.

Ao apresentar o estudo patrocinado pelo Estado aos leitores de seu jornal no Rio, Carlos Lacerda afirmou que “pela primeira vez, num conjunto de pesquisas, se examina a favela sob seus aspectos sociais e econômicos. E exaltava a segunda parte, “que tem muito de crônica até – realçada pela limpidez do estilo em que se trai a presença de um escritor social de primeira categoria, misto de repórter e cronista, como a escrever a “Comédia Humana das favelas.”

Na época do estudo, o Rio de Janeiro contava 186 favelas nas quais moravam 750 mil pessoas, um quarto da população da cidade. Passados 45 anos e a cidade entrando em 2005 com mais de 6 milhões de habitantes, a atualidade dos problemas apontados em “Aspectos Humanos da Favela Carioca” foi ilustrada pelo titular da pasta mais associada ao assunto, Marcelo Itagiba, da Segurança Pública, no mês passado: “o Rio foi uma cidade cercada de favelas e hoje é uma grande favela com a cidade no meio”.

(texto originalmente publicado no Estadao.com.br em 08 de janeiro de 2005)

Link relacionado:
“Rio é favela com cidade no meio”, diz Itagiba