Tributo a uma mulher desconhecida

Edmundo Leite

04 Abril 2011 | 19h13

Não sei o nome nem quem é a protagonista da denúncia estarrecedora registrada pelo 190 da Polícia Militar, e noticiada pelo Estadão. Seja quem for essa mulher, qual for sua história de vida, entrou para um panteão em que poucos teriam lugar.

Seu gesto de coragem ao celular e na frente do policial assassino é um editorial pronto, um libelo contra a injustiça e a violência, um “Eu acuso” de Zola dos tempos modernos. Com uma simples ligação telefônica, rompeu uma eterna lei do silêncio que costuma imperar em casos semelhantes: “Diz que já é normal fazer isso aqui, mas não é normal eu assistir isso…”

Não é normal eu assistir isso... Fora a dignidade de não aceitar a violência como coisa normal e de denunciar um crime covarde cometido por quem deveria combatê-los no momento em que a barbárie era cometida, há a coragem indignada de contestar a versão estapafúrdia que o policial quis apresentar ao se perceber flagrado por esse mulher desconhecida. “… Não, não. Eu estava socorrendo o rapaz. Socorrendo? Meu senhor, olha bem pra minha cara.”

Claro que já não falta – inclusive em mensagens aqui no Estadão – gente dizendo que a polícia está certa em matar bandido mesmo infringindo a lei. Não está. A mulher desconhecida lembrou isso aos policiais e à sociedade. Lembrou que não podemos aceitar o crime, sobretudo de quem deve combater o crime.

Em muitos lugares do mundo existem monumentos ao soldado desconhecido, em homenagem à bravura dos anônimos que lutaram por uma causa que talvez nem soubessem direito qual era. Um monumento a essa mulher desconhecida deveria ser erguido na Zona Leste de São Paulo. Espero que não num cemitério.