Uma noite de boa música na Fundição Progresso

Edmundo Leite

22 de setembro de 2004 | 14h20

Uma noite de boa música na Fundição Progresso

(Publicado originalmente em 22/9/2004 14:25 no grupo de discussões Komuna)

Há quem ache que as canções de Raul Seixas não devam ser interpretadas por outros artistas. No máximo, admitem (não por critérios musicais) que uns poucos escolhidos o façam.  Algumas dessas pessoas costumam se recusar até mesmo a ouvir essas versões. E quando isso por acaso acontece não é difícil usarem a palavra heresia para desqualificá-las.

Não eram essas pessoas que estavam na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, em 31 de agosto passado.  A maioria dos que lá estiveram parecia adepta de que música, sobretudo as boas, é para ser cantada, seja ela de quem for e por quem for. Esses puderam ver um grande show de música.

Já do lado de fora era possível perceber que se tratava de um público diferente, principalmente daquele que costuma freqüentar eventos ligados a Raul Seixas em São Paulo. O preto predominante nos eventos paulistas dava lugar a um alegre colorido e as pessoas pareciam prontas para uma noite de diversão. Cocotas, patricinhas, surfistas, pittboys, modelos, atrizes, engravatados,  descolados, playboys, neo-hippies, semi-clubbers, roqueiros discretos e universitários aos poucos iam enchendo a Fundição.

Poucos  com camisetas de Raul Seixas… Ninguém cantando ou gritando suas músicas. Sylvio Passos e  Toninho Buda  conversavam tranqüilamente  perto do palco sem que quase ninguém os reconhecesse.  Na área livre, o clima era de descontração, com azaração e  paquera. Certa vez Raul Seixas disse que esse tipo público foi o motivo de sua mudança para São Paulo. Sei não…

Talvez o motivo dessa diferença fosse por essas pessoas não estarem lá por causa de Raul Seixas, mas sim pelas vária atrações escaladas. Bastou o show começar para essa hipótese ir abaixo e ver que o dono da festa era mesmo ele. Eram exatamente 22:30 quando Arnaldo Brandão deu os primeiros toques em seu contra-baixo para dar início à Água Viva. Delírio na platéia.

Kika Seixas sai dos bastidores e se mistura anonimamente ao público sem que ninguém perceba. Ela leva as mãos ao rosto e parece bastante emocionada. Fica ali um pouquinho e volta aos bastidores, que – além de  artistas e produtores – também estava apinhado de gente com funções indefinidas.

Arnaldo Brandão mal termina Água Viva e já avisa que vai ter que tocar de novo, pois o “Meu Bom” falou que o som não chegava ao caminhão onde estava o equipamento de gravação. Esse tipo de  repetição seria uma constante em todo o show. Coisas de TV…   Logo depois, ele chama ao palco Rick Ferreira, anunciado como “o guitarrista de todos os discos de Raul”, que canta Clínica Tobias Blues. É a vez então do ator Roberto Bomtempo entrar para dizer alguma coisas e recitar “Prelúdio”.  Depois dele vem Toni Garrido, que, ovacionado, canta Gita com forte acompanhamento do público.

Kika Seixas está novamente misturada ao público sem que ninguém ao seu lado se dê conta. Transparece a satisfação por um trabalho realizado. Em seguida entra o Baia cantando Ouro de Tolo. Segundo consta, é um promissor artista. Parece que tem bons serviços prestados na divulgação de Raul Seixas, mas passou meio batido. Até porque o seu sucessor no palco foi o “B. Negão”,  um dos pontos altos da noite cantando “É fim do mês”, com o público marcando palmas como num terreiro de umbanda. Ele teve de repetir a música, fez num outro andamento, mas  que não se igualou à primeira versão.  Tomara que consigam colocar a primeira versão no DVD…

Terminada a sua performance, ele disse alguma coisa em homenagem ao De Falla (um grupo gaúcho) e chamou o Marcelo D2, que teve que esperar um tempão para começar a cantar por causa de novos problemas técnicos.

Na platéia,  bem perto do palco, duas moças que estavam ao lado da bela Helena Rinaldi (aquela das raquetadas) e diziam trabalhar em produções desse tipo comentaram que os responsáveis pelo show estavam meio perdidos. Enquanto isso, nos bastidores, Marcelo Nova e Pitty, toda de preto e com ombros à mostra, batiam papo e Lobão chegava com sua trancinhas de índia peruana e um blusão azul da seleção da Holanda. O D2 cantou alguma coisa que não recordo o que era, mas lembro que não ficou muito bom.

Já passavam 45 minutos de show quando começa na platéia o primeiro coro de “Raul, Raul, Raul”. O estopim foi Marcelo Nova, que havia acabado de entrar para detonar com “Pastor João e a Igreja Invisível”, acompanhado de Arnaldo Brandão e Rick Ferreira, já integrados à banda de apoio permanente. Marcelo Nova ainda mandou “Não fosse o Cabral” com outro arranjo e saudou o Rick como “um dos mais experientes guitarristas do País”. Rick então repete Clínica Tobias  que ele já havia cantado no começo.

Às 23:30, outro grande momento, com a elegante Zélia Duncan cantando “Metamorfose Ambulante” elegantemente. Ele anuncia então uma outra atração feminina: Pitty. Ela entrou falando “Toca Raul” e mandou  bem com “Eu sou Egoísta”. Depois dela, entrou o Lobão, que fez uma versão pesada do Rock do Diabo enquanto brincava imitando trejeitos de Raul Seixas com as mãos e as pernas.  Não lembro se ele teve de repetir a performance, mas em algum momento no meio da música ele soltou um “…todos, invariavelmente, vão tomar no cu”…, depois de ter feito algum comentário.  Segundo li depois num jornal, o xingamento já estava combinado ou algo assim. Acabada a performance ele chamou o “brother” Arnaldo Brandão, que tocou Água Viva de novo.

O ápice do show estava próximo. Quando Caetano Veloso entrou foi ovacionado pelo público. Com Rick Ferreira na Steel guitar (aquela que parece uma pequena mesinha e que o cara toca sentado), ele cantou Maluco Beleza acompanhado pelo público, que pediu o único bis da noite. Na verdade, o público ficou tão empolgado que  mal dava para ouvir a voz de Caetano, problema que provavelmente será corrigido no DVD.  Fora o bis, ele ainda teve de cantar uma terceira vez para que pudessem captar melhor a sua voz. Na saída para o seu camarim, ao contrário dos outros artistas, ele teve de parar vária vezes para autógrafos e atender aos vários pedidos de fotos.

Depois de Caetano, ficou difícil para Gabriel, o Pensador conseguir acender o público cantando Rockixe.  Essa tarefa ficou para o  Nasi, do Ira, que entoou Sociedade Alternativa e, vestido com uma capa do Raul, desenrolou um papel para recitar A Lei. Nos bastidores, o cara do Raimundos vibrava com a toada hardcore que o Nasi deu para a música. Pensando bem, qualquer um que cantasse Maluco Beleza e Sociedade Alternativa estavam destinados a se dar bem. Super conhecidas e com refrões fortes, são praticamente hinos… Assim como Tente Outra Vez, puxada por Sandra Sá em seguida,com a vantagem adicional de a música estar em rede nacional nas propagandas de auto-estima.

Já passa da meia noite e meia e Roberto Bomtempo volta ao palco e entoa Paranóia II. Começam a passar nos telões uns clipes do Raul Seixas (Abre-te Sézamo, Judas e o Dia em que a Terra Parou) o que era um sinal de que ara um intervalo enquanto ajustavam algumas coisas no palco e nos bastidores.

Não lembro se foi antes ou depois disso que Vivian Seixas tocaria, como DJ, uma versão remixada de “Como Vovó Já Dizia”, com a voz de Raul cantando uma versão inédita e censurada da canção. Nos bastidores, ela e uma amiga loira que a acompanharia  pareciam bem tranqüilas, ao contrário de Kika, que além da tensão natural de mãe nessas horas talvez pressentisse o risco que a filha corria. Com os primeiros “scratchs” já deu pra notar que o temor não era gratuito. A letra inédita era impossível de ouvir.

Na platéia, alguns comentários chavões do tipo “Raul deve estar se revirando no túmulo”. Apesar disso e dos assovios, o público até que respeitou. Mas não aplaudiu. Seguraram as vaias para o DJ Marlboro, que não foi poupado com sua versão para Rock das Aranha. Pela primeira vez, imagino, o badalado DJ deve ter escutado vaias em sua carreira. De minha parte, não deu nem para saber se a versão ficou boa ou ruim. Kika Seixas então subiu ao palco e falou alguma coisa, que também não consegui ouvir.

A essa altura já estava desfeita a banda com Rick e Arnaldo. As atrações seguintes tocariam com seu próprio equipamento, o que significava intervalo maior entre as apresentações. Para piorar, os caras do Raimundos não encontravam um de seus integrantes e atrasaram ainda mais a sua entrada.  Achado o perdido, mandaram ver com versões hard-core de Aluga-se e Não Pare na Pista. Essa segunda ficou muito boa e até o vocalista se surpreendeu com a sua performance, já que nem conhecia direita a música, como admitiu logo após deixar o palco.

Falando nisso, uma pequena curiosidade: todos os artistas tinham a sua disposição no palco o teleprompter (aquele aparelho de vídeo que passa a letra da música). Taí uma coisa que seria muito útil para o próprio Raul Seixas…

Encerrado o Raimundos, entra mais um clipe de Raul: A Maçã, que tem cenas de um casamento “missa negra” com ele e a Glória Vaquer. Lembra o Bebê de Rosemary. Nos bastidores, os produtores preocupados em não estourar o horário, já que ainda havia um monte de gente que ainda tem para se apresentar. Nasi e D2 trocavam idéias e num banco ali fora, acabada a bateria da máquina fotográfica digital e também da Renata, Sylvio Passos, como bom marido, serve de travesseiro para que ela durma em meio a tudo isso.  Mais um pouco, iriam embora. Assim deixaram de ver Érika e os Autoramas, com uma moça simpática e bonita cantando Let Me Sing. Divertido. Depois vieram, separados por grandes intervalos, os Detonautas, CPM 22, que foram bem, e Pedro Luís e a Parede, nem tanto. A impressão é que não conheciam direito a música (As aventuras…) e que não tinham ensaiado muito. Tentaram misturar um Luiz Gonzaga no meio, mas não foram felizes. Apesar dos intervalos, o público resistia.

Faltava apenas o Afro-Reggae quando alguém tem uma idéia infeliz e, pior, convenceu a Pitty de que era uma boa idéia. Enquanto arrumavam o palco para os moços dos tambores, colocaram a roqueira baiana sozinha no palco para cantar a Maçã, sem acompanhamento algum, só na voz, com a luz em cima dela no palco escuro. Ao que parece, ela devia conhecer a música mais ou menos, deram para ela escutar nos camarins e convenceram-na a cantar de improviso  só com a ajuda do teleprompter. Ela encarou o desafio, mas deu dó. Desafinou, ficou nervosa, mas foi até o fim, apesar dos assovios e vaias. Os fortes abraços de solidariedade que recebeu dos amigos ao sair do palco davam a dimensão da enrascada em que tinha se metido. Apesar disso, não se abalou e ficou mais um tempo por ali batendo papo.

Já eram quase 3 da manhã quando o Afro-Reggae encerrou a noite, com Mosca na Sopa. Durante a  desmontagem dos equipamentos, o Baia tomou posse do palco e com sua guitarra ficou tocando músicas do Raul Seixas enquanto os operários trabalhavam. Kika Seixas e Arnaldo Brandão pegavam suas coisas para ir embora. Do lado de fora, com os Arcos ao fundo e o circo ao lado, uma festa de cachorro quente, milho verde e churros ao som de funk carioca. Uma noite divertida. (Edmundo Leite)

(Publicado originalmente em 22/9/2004 14:25 no grupo de discussões Komuna)

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