3 regras do ‘bom texto’ a serem desprezadas (com parcimônia)
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3 regras do ‘bom texto’ a serem desprezadas (com parcimônia)

Redação

03 Novembro 2011 | 16h00

Lembrem-se, lembrem-se das normas para dezembro*

Quem se propõe a ser jornalista deve estar pronto(a) a ouvir. Não apenas as fontes de informação, mas as dicas/regras/normatizações vindas de professores, editores, diretores e, no caso destes focas, de jornalistas veteranos que avaliam todos os textos com atenção especial. Faz parte da nossa condição de eternos estudantes.

Nem por isso devemos deixar de refletir sobre o que os (hierarquicamente) superiores impõem. Sempre tive como hobby listar as normas dos mandatários do jornalismo. E, claro, questionar sua validade, pensar em maneiras de subvertê-las. Tentemos:

1. Não usarás “viatura” para designar “carro de polícia”

Um clássico da faculdade que pode nos perseguir no “além-academia”. Os mestres dizem que “viatura” é jargão policial. Sei. Alguém já conversou com alguém, mencionou alguma viatura e o interlocutor não entendeu? Pois é, dos meus primos de segundo grau com menos de 10 anos às minhas avós, ainda não conheci um brasileiro que estranhe a palavra “viatura”. Ela é útil, inclusive, para evitar a repetição de “carro” no texto. O “Houaiss”, um dos dicionários mais respeitados da língua portuguesa, reconhece “viatura” em seu significado primordial (“qualquer veículo, para transporte de coisas ou pessoas”), mas usa mais espaço para explicar o uso do termo no contexto militar. E, convenhamos, a maioria das pessoas sabe do que se trata. Prova final: uma busca com essa palavra-chave no Estadão.com.br.

2. Não começarás reportagens com repetição de homônimos

Esse recurso, considerado clichê fatal, já virou piada interna no Curso Estado de Jornalismo. O lide imaginário e jocoso se inicia com “Seios, tetas, mamas” (afinal, o chulo choca e repreende com eficiência). Mas existem casos em que essa ideia é superválida. Como neste texto do crítico de cinema Miguel Barbieri Jr. para a “Veja São Paulo”:

“Prime, Premier, Platinum, Splendor — não importa o nome, porque o conceito é um só. São as sofisticadas salas vip, instaladas nos cinemas dos shoppings, que, em troca de cardápios diferenciados, pipocas com azeite importado e poltronas megaconfortáveis, chegam a cobrar até mais que 50 reais pelo ingresso.”

A construção foi acertada. Logo de cara, explicou aos leitores a diferença (inexistente) entre a autodenominação de cada cinema vip paulistano e, com fineza, brincou com o fato de essas salas de exibição procurarem se distinguir com rótulos estrangeiros tão pedantes.

3. Não começarás reportagens com declarações de outrem

Simpatizo muito com essa regra. Na mesma medida, porém, me entusiasmo com os textos que se iniciam com aspas de alta precisão. Como exemplo de exceção possível, peço licença para expor um texto meu. “Sensual, aos 99” foi publicado em agosto deste ano no semanário Meio & Mensagem e tratava do reposicionamento de marca que a Lacta vem empreendendo no segundo semestre de 2011. Veja o lide:

É pornográfico.’ Assim a gerente de grupo de produtos da Kraft Foods Brasil, Patrícia Borges, responsável pela marca Lacta, define a forma como uma mulher devora uma porção de chocolates após três dias sem o doce. A constatação surgiu em meio a uma pesquisa com 400 pessoas conduzida pela empresa, com fases quantitativa e qualitativa, para precisar como o brasileiro se relaciona com a iguaria.”

Eu me senti quase obrigado a iniciar a reportagem com a aspa da executiva da Kraft. Observando agora, três meses depois, claro que reconheço que uma ou outra construção do lide poderia ser melhorada, mas só consigo contar essa história da Lacta a partir dessa declaração, tão forte e tão concisa — em especial porque vinda da representante de uma marca que vai completar um século de existência ano que vem. Minha mensagem é simples: focas do mundo, questionai! Acho saudável que procuremos outras possibilidades de subversão, sem deixar de buscar o equilíbrio de palavras e intenções no texto.

*trocadilho do lema de V, protagonista do filme “V de Vingança” (“Lembrem-se, lembrem-se do 5 de Novembro”, alusão à Conspiração da Pólvora), com o prazo dos focas para a entrega de reportagens para nosso caderno especial, que circula no último dia do curso (em 2011, 9 de dezembro)

José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo