O jornalismo investigativo no México do crime organizado
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O jornalismo investigativo no México do crime organizado

Redação

18 Novembro 2010 | 13h41

Depois de mais de um ano de apuração e ameaças de sequestro e morte, o repórter hondureno Óscar Martinez, de 27 anos, realizou uma série de reportagens impressionantes sobre a situação dos imigrantes ilegais que saem da América Central e México rumo aos EUA e acabam sendo sequestrados e mortos no caminho.

Alguns desses textos da série En el camino fizeram parte do exercício sobre apuração passado pelo editor do Estado Marcelo Beraba aos focas. Eu, Amanda Agutuli, Daniela Schmid, Frederico Silva e Paula Bianchi tivemos de analisar os métodos de apuração nas reportagens Os seqüestros que não importam, em que Martínez mostra a fundo o caminho dos migrantes, As invisíveis escravas sul-americanas, sobre a prostituição de adolescentes ilegais na região, e Nós somos os Zetas, sobre um dos grupos clandestinos mais bem armados do México.

Vejam este trecho do começo da matéria Os seqüestros que não importam, que pode ser lida no site do projeto:

El primer muerto fue un hondureño que viajaba con Arturo. Iba en el balcón, y desde el techo le pusieron una pistola sobre su cabeza. Entregó cien pesos a los hombres con pasamontañas, pero uno de ellos desconfió, bajó al balcón y lo revisó. La malicia le costó la vida. Le encontraron dinero en un calcetín. “Listo el hijueputa”, sentenció el que apuntaba antes de atravesar de un tiro la nuca del migrante que, ante lo inminente, se había volteado para cubrirse.

Depois de perder o fôlego com a leitura, todos do grupo concordaram em fazer uma pergunta óbvia a Martínez: Você estava lá? Afinal eram tantos os detalhes para compor alguns momentos de narrativa do texto que nos surpreendemos com a resposta: não, ele não presenciou a série de seqüestros. Para conseguir e confirmar a informação ouviu seis pessoas que contavam a mesma história.

Mesmo que naquele momento o jornalista não estivesse na linha de fogo, a equipe teve de lidar com ameaças constantes, já que muitas vezes se passaram como imigrantes para a apuração.

Outros desafios apareceram durante o trabalho. Como poucos se dispõem a falar dos sequestros, Martínez contou com o tempo – que lhe permitiu elaborar um mapa de fontes – e com a rechecagem de informações, até porque muitas vezes os testemunhos não eram gravados. Outro cuidado era não ficar mais de 25 dias em um só local, já que, em certos lugares, não era possível passar incólume pelos territórios dominado pelos cartéis. É preciso lembrar que o México é, hoje, um dos países mais perigosos para os jornalistas. Segundo a Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH), 64 jornalistas foram mortos e 11 estão desaparecidos desde 2000, sempre em ações atribuídas ao crime organizado.

A análise nos permitiu também pensar o jornalismo investigativo. Será que ele é realmente “caro, trabalhoso e chato”, como afirma Jesse Eisinger, repórter financeiro da Pro Publica, na matéria de Branca Vianna para a revista piauí? A empresa é voltada para o jornalismo investigativo e fez parte de um movimento que pode ser uma luz para este tipo de material, que é cada vez mais difícil de ser encontrado: o financiamento privado. A série En el camino foi produzida nestes moldes, e depois os textos foram vendidos para jornais como o salvadorenho El faro.

E em épocas de iPad, também é interessante perceber que o material produzido vai além do texto. Além de Martínez, viajaram três fotógrafos e dois documentaristas. E já se prepara um livro com a reunião de todos os textos, alguns inéditos, e um documentário.

Henrique Bolgue, de 27 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), onde também cursa o último semestre de Audiovisual

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