À espera de um lead
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À espera de um lead

Redação

12 Novembro 2011 | 08h00

Desconheço a língua portuguesa. Melhor: conheço-a de vista. Já ouvi dizer que poucos sabem lidar com ela, e até por isso preservo em mim o medo de tentar algo além de uma conversa casual. Tratamo-nos sempre com muito respeito, mas longe de sermos amigos chegados. A intimidade entre nós, que não existe, tampouco se esboça num futuro próximo. Ao contrário: por muitas vezes diante dela me constranjo, sem palavras.

Jamais ousaria convidá-la para o que quer que seja. Ela é demasiada livre! Trair-me-ia com o primeiro galanteador que lhe desse em mãos um Rosa. Sem titubear, esconder-se-ia de mim num sertão infinito de significados, para que me arrependesse do dia em que tentei domá-la. Comprasse eu as rosas – dúzias, grosas! –, ela arrebentaria a sintaxe para beijar a boca do poema mais libertino. Desgraçada!

Amo-a, porém, perdidamente. A verdade é que sonho tê-la ao meu ouvido sussurrando em verso e prosa que também me ama. Juntos, seríamos um casal perfeito. Ela me encheria de palavras belas, e eu as poria no discurso que melhor me conviesse. Separados, contudo, valho-me da secura do dicionário para conquistá-la: “Órgão oblongo, achatado, musculoso e móvel, pertencente ou natural de Portugal, aceita acompanhar-me nas colunas do jornal?”

Luis Carrasco, de 22 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero

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