A importância de sujar os sapatos
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A importância de sujar os sapatos

Redação

02 de dezembro de 2010 | 14h15

Nos últimos tempos, é cada vez mais comum as apurações acontecerem por telefone, seja nos pequenos, seja nos grandes veículos de comunicação. Compreensível: o tempo urge, as notícias correm cada vez mais rápido e o orçamento das redações é cada vez mais apertado. Foi nesse contexto que eu cheguei ao mercado, assim como a maioria dos focas e dos jovens que começam na profissão neste momento.

Porém, nem sempre é possível obter a informação desejada dessa maneira. No meio do caminho, há sempre uma fonte que não atende, um assessor pouco disposto a colaborar… (como mencionou Amon, em seu post passado). No suplemento que estamos produzindo, isso tem se repetido com frequência e despertado um bom e velho preceito do jornalismo: sujar os sapatos – sair da redação e ir pessoalmente atrás das informações.

A estratégia, muito bem descrita por Érica e Amanda em seus últimos posts, também encontra um ótimo exemplo em uma reportagem que eu, Flávia e a própria Érica estamos fazendo. Precisávamos entrevistar uma fonte da Prefeitura, essencial para a matéria, mas passadas duas semanas, nada de conseguir falar com a pessoa. Incumbido de fazer o contato, ligava diariamente para seu escritório, recebendo sempre as mesmas desanimadoras respostas: “Ela está em reunião”; “Ela está no exterior”; “Pode deixar dou o recado.” No celular, repetiam-se as mesmas ligações diárias. Só caixa postal.

Depois de muita insistência, finalmente uma luz. Em uma tarde, um assessor de imprensa ouviu as minhas preces e, num ato de extrema solidariedade, marcou uma entrevista para dali a algumas horas. Me preparei, pus meu nome na lista dos telefonemas (um padrão de conduta na sala dos focas) e fiquei só aguardando o horário combinado. Cinco e meia: era hora de ligar. Com o bloquinho na mão e as perguntas na cabeça, disquei ansioso o celular da fonte. Quem atende é o assessor:

– Felipe, você pode retornar daqui a pouquinho, é que ela está atendendo duas jornalistas…

Como assim? – pensei, irritado. Tinham marcado comigo! Depois me lembrei que Érica e Flávia haviam ido ao escritório da mulher buscar uns materiais; quem sabe pegá-la no pulo.

– Você sabe me dizer se as jornalistas que estão aí são a Érica e a Flávia, do Estadão? – perguntei.

Eram elas mesmas.

– Então pode deixar que elas fazem a entrevista – disse, rindo aliviado da coincidência.

A história ilustra a importância de, em determinados casos, ir a campo atrás da informação. Tudo bem que as coisas estavam encaminhadas, mas as meninas conseguiram, em uma tarde, o que eu vinha tentando havia semanas por telefone. Sujaram os sapatos.

Felipe Tau, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero

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