Alana Rizzo e Ana Addobbati: ‘O assédio tem impacto direto na produção jornalística’
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Alana Rizzo e Ana Addobbati: ‘O assédio tem impacto direto na produção jornalística’

A dupla esteve nesta quarta-feira, 26, na mesa Mulheres no Jornalismo Brasileiro, na Semana Estado de Jornalismo 2018

Redação

26 Setembro 2018 | 16h02

Por Clara Rellstab

Ainda que sejam a maioria nas redações, 73% das jornalistas brasileiras afirmaram já ter escutado comentários ou piadas de natureza sexual sobre uma mulher ou mulheres no ambiente de trabalho. É o que aponta o relatório Mulheres na Mídia, organizado pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em parceria com a Gênero e Número, agência independente de jornalismo de dados, apresentado ano passado.

Organizadora do estudo, a ex-presidente da associação (2012-2017), Alana Rizzo, esteve nesta quarta-feira, 26, na mesa Mulheres no Jornalismo Brasileiro, na Semana Estado de Jornalismo 2018. “A gente sempre ia para congressos e conversávamos, entre as mulheres, como estava difícil para a gente, fazendo relatos pessoais e íntimos de assédio que vínhamos sofrendo dentro e fora da redação. Nos propusemos, então, a pesquisar isso na Abraji”, revela.

A pesquisa se dividiu em duas etapas – qualitativa e quantitativa -, para tentar identificar a situação das jornalistas nas redações, os tipos de violência que enfrentam na rotina de trabalho, como elas respondem a eles, avaliação sobre chances e oportunidades, e o modo como enxergam a perspectiva de gênero nas coberturas. Foram entrevistadas mulheres do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Porto Alegre, de 271 veículos diferentes.

“Ouvimos relatos pessoais íntimos, alguns que iam acontecendo há muitos anos, outros que eram histórias mais recentes e corriqueiras, que, às vezes, a gente nem se toca que é uma agressão – tudo isso em sigilo”. Destas mulheres, 64% sofreram abuso de chefes ou fontes, 83,6% foram vítimas de violência psicológica, 92,3% ouviram piadas machistas, 46% não têm canal de denúncia na firma, e 65,7% disseram que sua competência já foi questionada por chefes ou colegas.

Sobre esses dados, Rizzo acredita que haja uma naturalização das situações discriminatórias nas redações e que essas mulheres se sentem constrangidas em enfrentar as atitudes machistas com as quais se deparam no trabalho: “uma das nossas motivações era sair dessa nossa redoma”. “A gente queria mostrar como o assédio tem impacto direto na produção jornalística”, resume.

Com uma segunda edição engatilhada, que deve ser lançada ainda este ano, a jornalista já adiantou algumas alterações na metodologia, como a inclusão do recorte racial. “As mulheres negras são muito mais assediadas. Entendemos que a gente tem uma responsabilidade ainda maior de olhar para essas nossas colegas”.

O estudo teve como fruto principal uma cartilha de recomendação às mulheres e empresas que podem acelerar a transição para um período de justiça com todas as repórteres, editoras e trabalhadoras da imprensa brasileira.

São elas

1)Os veículos devem produzir cartilhas para funcionários e colaboradores definindo o assédio cometido por uma fonte e indicando os procedimentos a serem adotados pelas repórteres quando forem vítimas desses atos

2)Todos os repórteres devem ser orientados a tratar do tema do assédio junto a suas fontes; é especialmente importante ressaltar o caráter de violação à liberdade de expressão que essa conduta acarreta

3)As redações devem organizar grupos de monitoramento da diversidade de gênero nas redações; esse grupo deve ter um canal de comunicação direto com a direção do veículo e a missão de produzir relatórios periódicos com análise tanto da cobertura, para identificar desequilíbrios no gênero das fontes ouvidas, quanto da composição da redação, para orientar possíveis novas contratações.

4) As redações devem criar um canal de comunicação interno para que vítimas de abuso e assédio possam fazer a denúncia formal

5) Os veículos devem investir em capacitação de todos os repórteres em temas de diversidade; há cursos, palestras, debates e webinars disponíveis que podem auxiliar no combate a este tipo de violência.

6) As redações devem encarar como pautas relevantes todas as investidas inapropriadas de fontes sobre jornalistas mulheres. Estampar o assédio às trabalhadoras, bem como dedicar espaço a reportagens sobre diversidade de gênero é um passo importante para desestimular o abuso.

Acordar todos os dias acreditando que a sua ideia é muito boa. Essa foi uma das dicas ofertadas pela jornalista Ana Addobbati, que deu sequência ao painel, para aqueles que pretendem se aventurar no empreendedorismo.

Hoje sob o comando da start up Woman Friendly, que tem como objetivo combater o assédio sexual em empresas, e embaixadora da rede Chicas Poderosas, grupo que orienta mulheres a serem líderes de mídia, Addobbati revelou que a vontade de atuar contra a desigualdade de gênero surgiu após se de deparar com uma pesquisa que apontava que 76% das mulheres já passou por algum tipo de assédio sexual na vida. “A gente foi para o mercado perguntar como é que a gente pode resolver esse problema”, conta.

A start up, que atua em âmbito mundial, certifica as empresas que se predispõem a combater o assédio sexual internamente, orientando, através de um protocolo, como os funcionários e as lideranças das firmas devem agir quando se encontrarem diante de um caso de violência do gênero: “um projeto além do ativismo de Facebook, escalável e acessível”.

A gente quer interromper o ciclo da violência. Quando a mulher é vítima, muitas vezes não sabe. Quando começa o desconforto, tem que procurar o coleguinha ou a coleguinha, a mãe, um amigo, e falar que tem alguma coisa acontecendo. Cada um de nós pode ser um militante contra o assédio”, garante.

Sobre o primeiro passo no empreendedorismo, Ana explica que nada acontece sem estudo. “No começo você vai ter que fazer tudo. E aprenda: registre as suas ideias. Se ela for boa, você consegue um investidor. E façam suas redes, as mulheres têm que atuar em rede, em qualquer ambiente profissional que vocês estiverem”, resume.

Já para levar o feminismo para as mulheres que ainda desconhecem o tema, a jornalista aconselha evitar o termo, e optar pelo local da empatia: “É um trabalho de formiguinha. Mas vocês têm todo o poder para criar um novo ambiente”.