Amanda Rahra e Melissa Cannabrava: ‘Agenda pública de quem? Para quem? Questione!’
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Amanda Rahra e Melissa Cannabrava: ‘Agenda pública de quem? Para quem? Questione!’

Fundadora do Énois e editora do impresso A Voz das Comunidades comandaram a segunda mesa desta quarta-feira, 26, na Semana Estado de Jornalismo 2018.

Redação

26 Setembro 2018 | 19h21

Por Clara Rellstab e Jéssica Petrovna

Mais importante que a fluência em inglês, é a fluência em jornalismo. Essas são as palavras de Amanda Rahra, co-fundadora do Énois, palestrante que abriu a segunda mesa desta quarta-feira, 26, na Semana Estado de Jornalismo 2018.

O projeto é uma escola e laboratório aberto para jornalistas, que apoia o desenvolvimento de jovens que reflitam e produzam jornalismo diverso, a favor de uma imprensa mais democrática. Lá, os alunos são incentivados a pensar em pautas, produzir reportagens e experimentar formatos e ferramentas que questionem a existência e as formas de financiamento do jornalismo para os próximos anos.

O trabalho teve início há dez anos em São Paulo e, atualmente, oferece dez vagas por ano para jovens estudantes de escolas públicas que tem entre 16 e 21 anos de idade. “Este ano, tivemos 270 inscritos. Isso mostra que existe muita vontade de fazer jornalismo”, ressalta Rahra.

Ao defender que a produção da imprensa precisa ser diversificada, a jornalista frisou o fato de que os negros são 5% dos jornalistas brasileiros, apesar de serem 52% da população: “ a gente tem a missão de não deixar isso aqui [o jornalismo] só na mão de oito famílias. Que as instituições tenham suas diferenças, mas que as pessoas possam dialogar para resolver as questões complexas. Agenda pública de quem? Para quem? Questione!”.

“Depois desse choque de realidade com a Amanda, quero passar mais um para vocês”. Assim se apresentou Melissa Cannabrava, responsável pelo jornal impresso A Voz das Comunidades, que narra o cotidiano do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Criado em 2015, por Renê Silva, o jornal ganhou a mídia mainstream durante a tentativa de pacificação da comunidade a partir da instalação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).

“Foi nessa semana que a grande mídia se importou com o Complexo e subiu para perguntar o que estava acontecendo. Renê acordou um dia com mais de 30 repórteres na porta da casa dele. Nem metade do que vocês vêem na TV é o que realmente acontece no Rio de Janeiro”, conta. O veículo é independente, funcionando com o apoio de empreendimentos locais e parcerias com organizações sociais, e conta com mais de 50 colaboradores voluntários.

“A imprensa só tinha as informações da polícia, ou seja, só sai o que eles querem que vocês saibam. O Voz das Comunidades tava no Twitter e no Facebook falando o que realmente tava acontecendo: pé na porta e soco na cara”, revela. O Voz foca nos problemas sociais e informações de interesse do morador, uma vez que as pautas vêm de quem lá reside – há ainda uma roda de conversa para escutar diretamente a população.

Ao finalizar sua participação, Melissa alertou que quem quer trabalhar com jornalismo comunitário, tem de ter um extremo cuidado com o que fala e não deixar de fazer uma conexão direta com o morador: “É fazer a política da boa vizinhança”.