Amor de estrada
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Amor de estrada

Redação

25 Novembro 2010 | 13h23

O jornalismo é feito de gente. E é incrível como essa gente está disposta a ajudar: desde uma simples indicação de endereço até a confiança de contar sua história de vida para um estranho – o repórter.

Desde semana passada, eu e a foca Érica estamos percorrendo regiões de São Paulo à procura de casas que tenham porão (aliás quem conhecer alguma, nos conte!). Com algumas indicações de arquitetos, de amigos e do Google, percorremos vários bairros, observando as casas, tocando a campainha e perguntando:

– Tem porão na sua casa?

– Sim. (ou)

– Não. (ou)

– Temporão? O que é isso?

Os mais reservados apenas respondem. Os mais curiosos querem o saber o motivo da pergunta. Os mais interessados param, pensam, dão dicas de possíveis locais e, às vezes, até nos acompanham nessa empreitada.

Satisfeita com a ajuda, me questiono por que a maioria das pessoas se mostram tão dispostas, tão solícitas com o repórter. Que cumplicidade instantânea é essa? Qual o laço tão firme que fica preso por tão pouco tempo?

Afinal, nos conhecemos naquela hora e a afetividade daquele momento vai acabar quando nós, repórteres, deixarmos a porta da rua da casa do entrevistado. No muito, a amizade vai durar até a publicação da matéria. O mais interessante é que as pessoas sabem que esse vínculo é passageiro e, que, no outro dia, o repórter já estará apaixonado por outra história. No fundo, somos como caminhoneiros e seus amores explosivos de estrada: sabemos que não vamos voltar, mas nos despedimos com um “até logo!”

O que me intriga é que a relação provisória de confiança entre o repórter e um político ou empresário, por exemplo, é justificada por um jogo de interesses da mídia com o poder. Mas no caso de pessoas comuns que abrem suas casas para um desconhecido é difícil compreender. E cabe ao repórter agradecer a confiança e não desperdiçá-la.

Acabo me convencendo de que as pessoas querem ser ouvidas. E que é muito bom ter alguém que se interesse por sua história, mesmo que seja por uma tarde. Por isso, cabe a nós, contadores de histórias, retribuirmos a confiança com um bom texto, respeito e sinceridade com quem tanto nos ensina: as pessoas.

Flávia Maia, de 23 anos, é formada Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB)

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