Bastidores: ‘Projovem Urbano é caro e ineficiente’
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Bastidores: ‘Projovem Urbano é caro e ineficiente’

Redação

16 de dezembro de 2011 | 18h00

Jovens sem ensino fundamental completo fazem avaliação final do Projovem Urbano. Foto: Davi Lira

A matéria foi publicada no caderno especial dos focas no dia 10 de dezembro. Foram mais de 250 mil edições impressas juntamente com o Estadão daquele sábado. Essa tiragem era algo que nos impactava bastante. Queríamos aproveitar o potencial de circulação do caderno para produzir um material com um tom nitidamente factual (mesmo num caderno eminentemente de comportamento). O texto deveria ter uma pegada jornalística de denúncia focando no grande tema do suplemento: a juventude. Queríamos, além de tudo, nos testar, e praticar todo o conhecimento adquirido durante os 100 dias de muitas atividades, palestras, workshops e passagens nas redações do Grupo Estado.

Era o nosso momento de nos firmamos enquanto jornalistas profissionais. Não poderíamos falhar em nada. E foi o nosso interesse por educação e política que acabou nos levando, naturalmente, a escolher como pauta um programa de educação do governo voltado para os jovens. Não deu outra, o Projovem Urbano e os seus percalços foi o foco da nossa apuração que durou três longas semanas, sem quaisquer intervalos. Durantes, dias, noites e madrugadas à dentro, inclusive dos fins de semana, nos focamos em uma extensiva análise de dados, informações, notícias, legislação,projetos de governo, documentos de auditoria e cartilhas de acompanhamento do programa pelos órgãos oficiais e ONGs.Sem esquecer das valiosas orientações dos especialistas em educação: Mozart Ramos (Todos pela Educação), Maria Virgínia (Ação Educativa) e da professora Marisa Ribeiro (UFMG).

Foi muita apuração e muita análise de dados coletados nos portais de transparência do gasto e de outros órgãos de acompanhamento de políticas públicas: Siga Brasil (números coletados e comparados com os dados fornecidos pelo Contas Abertas) , relatórios de auditoria do TCU,  site do FNDES para o acompanhamento da prestação de contas, relatório com Estudo de Caso sobre o Projovem do Fundo de População das Nações Unidas, documento “Indicadores sociais” do IBGE,  textos de discussão do Ipea sobre Políticas da Juventude, análise do portal de controle do Ministério do Planejamento, e uma série de artigos científicos recentes da área de avaliação educacional. Todo esse cuidado se justifica pelo impacto que a matéria poderia proporcionar na principal política do Governo Federal para a juventude.

A cada dia, com a análise cuidadosa do material coletado, dávamos de cara com uma série de problemas de gestão e eficiência, nitidamente comprovados e fundamentados por órgãos oficiais e entidades inquestionáveis. Logo, sabíamos de antemão que algo não estava bem estruturado.Lançado em 2005, o Projovem (Programa Nacional de Inclusão de Jovens) passou por uma reformulação e, em 2008, foi dividido em quatro modalidades, entre eles, o mais significativo, o Projovem Urbano, comandado pela Secretaria Geral da Presidência da República. Outros veículos de comunicação já haviam falado de forma isolada sobre algumas deficiências do programa como um todo (especialmente dos desvios do Projovem Trabalhador), à exemplo do Correio Braziliense.

Apenas uma outra matéria do O Globo estava mais consolidada, mas pouco pontual a respeito do Projovem Urbano (essas“descobertas” durante o processo de apuração nos deixou um pouco atordados: “a concorrência já havia dado, e agora?”).

Não deu outra. Optamos por dar enfoque ao Projovem Urbano e conseguimos dados bastante significativos que até então nenhum veículo de comunicação havia tratado: a questão do rendimento — com que nota o aluno entra e com que pontuação ele sai. Essa questão só havia sido tratada, basicamente, com foco na quantidade de alunos formados e na evasão.

Os dados demoraram a chegar. Só recebemos depois de muita insistência junto à Secretaria da Presidência, que centraliza as dados do Projovem Urbano. Informações dos outros Projovens (Adolescente, Trabalhador e Campo), também foram coletados junto aos respectivos ministérios (Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Trabalho e Emprego e Educação, respectivamente). O espaço que tínhamos no caderno, porém, nos obrigou a desprezar os outros Projovens.

Com tantos dados analíticos e planilhas de orçamento, chegamos a nos complicar um pouco para definir o foco. Sabíamos que deveríamos nos distanciar do tal “vamos fazer um balanço”. Mas como o programa vai migrar para o Ministério da Educação em 2012, optamos por um apanhado geral das deficiências de gestão.

DAVI: Algo que, particularmente, sempre me chamava atenção, desde o início, era o ganho em imagem que os políticos obtinham no momento da “formatura” das turmas de um mesmo Estado em um único evento. Acompanhava nos sites oficias de algumas prefeituras, especificamente a do Recife, e recentemente havia lido no jornal O Povo de Fortaleza um artigo da prefeita Luizianne Lins elogiando de forma pomposa o programa, sem criticar a qualidade do ensino. Queriam apenas a foto. Era muita gente se formando ao mesmo tempo. Suspeitei logo da qualidade. Em alguns momentos passava pela cabeça o seguinte: “será que o programa, por mais bem pensado que seja (e é!), não acabou virando um supletivão do ensino fundamental?”. Uma das maiores autoridades sobre ensino básico, o senador Cristovam Buarque (PDT/DF) confirmou essa tese. E o mais importante foi o contato que tive com algumas turmas. Era visível a dificuldade dos alunos que faziam a avaliação final de entender textos simples em bilhetes ou efetuar contas banais de matemática. Mas também era nítido o ganho em autoestima dos participantes e a incrível felicidade de tantos outros de terem a chance de voltar à escola e ganharem um novo círculo social. Mas o ponto central da matéria era nítido: atacar à ineficiência da gestão, não destruir o programa, tão bem concebido.


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Davi Lira de Melo, de 26 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

Débora Álvares, de 23 anos, é formada em Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB)

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