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Bastidores: ‘Contaminado, solo paulistano é incógnita’

Redação

23 de dezembro de 2010 | 01h54

Começamos a matéria de uma forma comum para boa parte dos repórters: no escuro. Além de estrangeiros em São Paulo – um mineiro e uma gaúcha recém-chegados, por mais que tentem, não dão meio paulistano -, também não tínhamos lá muita intimidade com a pauta. Contaminação do solo é um tema interessante, agora contaminação do solo de uma região metropolitana com mais de 20 milhões de pessoas não é tão simples assim de desvendar.

Dividimos esforços e partimos para a pesquisa. Muitos textos depois, chegamos a dois pontos chaves de contaminação mapeados inclusive pela Prefeitura: os postos de gasolina e as comunidades estabelecidas em cima de áreas contaminadas, como lixões abandonados. Com uma pauta mais palpável, começamos as entrevistas e os textos. No entanto, uma conversa com a editora, Carla Miranda, nos obrigou a voltar para o grande mistério da contaminação: nada de textos específicos, precisávamos mapear o solo da cidade.

Entre as fontes que tentavam nos ajudar com esse quebra-cabeça, muitos professores, médicos e assessores de imprensa, além dos moradores das comunidades. Enquanto a academia fazia questão de falar, a assessoria do Estado preferia nos enrolar. Nesse momento, escrever para um jornal de circulação nacional não adiantou muito. Valeu mais o posto de focas, solenemente ignorado.

Puxa daqui, pesquisa dali, entrevista acolá, o texto nasceu. Um emaranhado de informações que procurava explicar para o leitor que, apesar do estardalhaço causado pela série de investigações sobre a poluição causada pelos postos de gasolina mal fiscalizados, eles eram apenas um dos fatores de contaminação do solo da cidade. O buraco era muito mais embaixo, ou em cima, já que a malha de indústrias clandestinas e regulares também mal fiscalizada era responsável por boa parte da poluição não mapeada.

Mais uma vez, foi sentando com a editora que a matéria renasceu. “Se a cidade está em cima de uma bomba relógio (citação de uma professora reiterada por vários outros entrevistados) por que isso não está no título?” Às vezes, apuramos tanto que esquecemos de olhar para o texto e dizer para o leitor o que é mais importante, já que para nós tudo parece ter grande valor.

Com o toque da Carla, foi só uma questão de reler, mudar a estrutura e voilá: tínhamos uma bela matéria sobre contaminação, que dizia justamente o que sentimos no começo. Com mais de 400 anos de urbanização e poucos estudos a respeito, não sabemos e nem temos como saber o que existe no solo de São Paulo, o que, além de uma incógnita, é um problemão para a cidade.

Junto com a sensação de dever cumprido, ficou também um ensinamento do professor Paco Sánchez: um texto bem feito mostra 10% da apuração. Como falamos com quase 15 pessoas e pesquisamos bastante, a sensação era de que nem 5% do material estava ali e que seria possível fazer um caderno inteiro sobre contaminação.



Paula Bianca Bianchi, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Tiago Rogero, de 22 anos, é formado em Jornalismo pelo Centro Universitário Newton Paiva, de Belo Horizonte

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