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Bastidores: ‘Da Paraíba para os porões paulistanos’

Redação

25 de dezembro de 2010 | 17h38

A ideia dessa pauta nasceu no dia em que apresentamos os possíveis temas para o suplemento dos focas. Quando decidimos que seria o subterrâneo de São Paulo, o editor-chefe do Estadão, Roberto Gazzi, logo sugeriu: “Podemos fazer uma matéria sobre os porões da cidade, as famílias que ainda mantém os seus porões, suas histórias”.

Estava dada a largada. Fomos procurar casas que tivessem porões. E não bastava ter porão, era preciso que a família utilizasse o cômodo há várias gerações e que disso resultasse numa boa história. O desafio dado pela editora Carla Miranda era grande. Nada que o entusiasmo e litros de gasolina não fossem capazes de vencer.

A procura por porões se estendeu por quase um mês. A pesquisa de lugares começou por indicações na internet. De um texto saudoso sobre um sapateiro que trabalhava no porão, nasceu nosso ponto de partida: a Rua Major Diogo, no Bexiga. Realmente a rua era cheia de porões, desde o do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) até um forró no porão conhecido como Buraco da Barata. Na mesma rua, encontramos casas antigas em que os porões viraram pensões para famílias de baixa renda, em especial, de migrantes vindos do Nordeste.

Todas as histórias dessa rua nos empolgaram, mas a editora ainda não estava satisfeita. Iniciamos então uma verdadeira saga atrás de famílias centenárias e seus porões. Batemos de porta em porta na Vila Clementino, Vila Mariana, Saúde, Campos Elísios e Bexiga… Nada de famílias centenárias! Percebemos que elas tinham abandonado há anos essas regiões. A pauta inicial começava a cair.

Observamos, porém, que muitos porões estavam alugados para comércios ou foram adaptados – como aquele do Bexiga – e se tornaram moradias de baixo custo e boa localização para os trabalhadores. Uma nova pauta surgia, pois a realidade tinha ultrapassado o contorno da pauta que havíamos traçado dentro da redação. E a editora concordava.

O resultado foi uma matéria de personagem, baseada em duas boas histórias. A rua nos mostrou um elemento básico do jornalismo que acaba sendo esquecido no dia a dia: a vida que o jornalista cria em sua cabeça muitas vezes está longe da que existe de fato, e é preciso humildade para deixar a realidade – com suas limitações e encantamentos – remodelar a pauta inicial.



Érica Saboya, de 24 anos, cursa o último semestre de Jornalismo na PUC-SP

Flávia Maia, de 23 anos, é formada Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB)

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