Bastidores de um furo
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Bastidores de um furo

Redação

08 Novembro 2010 | 13h39

No fim de semana, foi realizado mais um Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que teve cerca de 4,6 milhões de inscritos em 1,8 mil municípios brasileiros.

Maior processo seletivo do País, a prova é utilizada para a concessão de bolsas do Programa Universidade para Todos (ProUni) e selecionar ingressantes para universidades e institutos federais.

Por coincidência, o exame ocorreu em meio a um exercício que os focas estão fazendo a pedido do editor do Estado Marcelo Beraba, sobre os fundamentos da apuração. Meu grupo, formado por mais quatro focas, ficou encarregado de analisar justamente a reportagem que resultou no cancelamento do Enem do ano passado.

A matéria Prova do Enem vaza e ministério anuncia o cancelamento do exame foi publicada no dia 1º de outubro de 2009 no Estado e causou a suspensão do exame a dois dias de sua realização. Os responsáveis pelo furo foram os jornalistas Renata Cafardo (então chefe de reportagem da editoria Vida) e Sergio Pompeu, editor do Estadão.edu.

O trabalho rendeu a eles o Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo na categoria jornal, em setembro, além de uma vaga entre os três finalistas do Prêmio Esso de Reportagem, cujo vencedor será anunciado no dia 19.

Eu, Gustavo Aleixo, Bruna Maia, Marina Estarque e Tiago Rogero entrevistamos os jornalistas na última quinta e sexta-feira para saber quais foram os caminhos percorridos pela dupla e como se fizeram presentes os cinco princípios básicos da apuração elencados por Beraba: observação, rechecagem, documentação, pesquisa e entrevista. Segue abaixo a maneira como esses princípios foram aplicados pelos jornalistas, uma aula valiosa para quem está começando a carreira:

Observação
Renata Cafardo, em encontro com os dois homens que queriam vender a suposta prova vazada, pediu para dar uma olhada rápida no exame e, nos poucos minutos que teve, esforçou-se para memorizar itens do enunciado das questões (uma tira da Mafalda, um desenho do Garfield, o poema Canção do Exílio, etc). “Eu já fui com o plano de decorar as questões. Só assim conseguiria a matéria”, explicou Renata.

Checagem/Rechecagem
Decoradas partes das questões, foi enviado um e-mail com seu conteúdo para o ministro da Educação, Fernando Haddad, a fim de comprovar se estavam, de fato, presentes na prova. “Falei mais de 15 vezes com o ministro até confirmar”, disse ela.

Documentação
O e-mail enviado a Haddad serviria como registro formal de que a prova tinha vazado, de que o Estado a tinha visto e de que o MEC confirmava o ocorrido. Isso daria segurança aos repórteres para publicar a matéria. Fotos dos informantes registradas por um fotógrafo estrategicamente posicionado também renderam documentos comprobatórios.

Pesquisa
A identidade dos informantes foi descoberta por meio de uma varredura cuidadosa em redes de relacionamento, feita por especialistas em mídias sociais do próprio jornal. “É possível achar muita coisa com esse recurso”, diz Sergio Pompeu, para quem os jornalistas deveriam dominar essas ferramentas.

Entrevistas
Sergio Pompeu e o jornalista Fausto Macedo entrevistaram o responsável por informar ao jornal que a prova tinha vazado. Por meio dele, foi descoberto o nome de um dos informantes do encontro e dados que permitiram localizá-lo depois na internet.

Graças a esses recursos, 4,1 milhões de candidatos deixaram de realizar a prova em vão.

Felipe Tau, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero