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Bastidores: ‘Histórias de quem conhece a vida embaixo da terra’

Redação

29 de dezembro de 2010 | 08h57

Fazer um caderno sobre os subterrâneos da cidade nos permitiria levar ao leitor uma série de coisas que ninguém vê ou talvez tenha apenas ouvido falar. Isso ocorreu até mesmo com a gente. No nosso caso – Felipe Frazão, Gustavo Coltri e Daniela Schmid – havíamos escutado histórias de que pessoas moravam sob a terra em São Paulo. Nosso objetivo foi achá-las e contar suas histórias.

Saímos em busca de indícios e lugares onde poderíamos encontrar esses moradores. Foram cerca de duas semanas de buscas, sempre à tarde e à noite (nesses horários, as pessoas costumam vagar pela rua e, durante o dia, havia outros compromissos do curso). Fizemos contato por telefone e visitamos entidades civis e religiosas de auxílio a moradores em situação de rua. Entramos em buracos sob viadutos, ficamos de plantão em cemitérios, distribuímos cobertores sob chuva fina com os irmãos da Toca de Assis, frequentamos a macarronada da Sé, descemos em galerias pluviais.

Tivemos sucesso em quatro investidas, que optamos por dividir em reportagens independentes com traços comuns: apego a Deus, isolamento da família, falas rápidas – às vezes desconexas, com informações inconsistentes –, temor em revelar nome e local de moradia (o que, num dos casos, foi exigido para conseguirmos a entrevista), proximidade com drogas, medo de bandidos e da Polícia.

Por opção da edição, as histórias foram condensadas, preservando ao máximo a parte mais pertinente de cada. Também tivemos de cortar a matéria sobre os jovens retirantes Jonatan, de Alagoas, e Enoque, do norte de Minas.

Leia algumas curiosidades e trechos inéditos.

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No centro, conseguimos nossa primeira entrevista. Fomos ao encontro de Jonatan, de 28 anos, e Enoque, de 23. Os rapazes dividem um mocó (como chamam o buraco sob um viaduto da região) com mais sete pessoas. Foi também nosso primeiro choque. Eles vestiam roupas limpas, contrariando o estereótipo do morador de rua em situação de mendicância, completamente sujo, com vestes rasgadas, cabelos e barba por fazer. 

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A dependente de crack Sônia mora com mais três pessoas na barraca improvisada na galeria pluvial da Avenida Inajar de Souza. Por conveniência, apelidou-os de Tia, Grandão e Barba. Não sabe o nome verdadeiro deles. Mesmo assim, disse entre uma baforada e outra no cachimbo com a droga: “Esses são meus amigos de verdade, estão sempre comigo.”

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Cleonice vive solitária no cemitério, mas, às vezes, visita a filha em Guaianases, zona leste de São Paulo. A pernambucana, idosa, chegou a São Paulo ainda jovem, para ser empregada doméstica em casa de família. Dos tempos em que tinha emprego formal, resta apenas um cartão do INPS.

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Zé, o morador da Praça da Sé que abre a reportagem publicada no suplemento, está escrevendo dois livros, nos quais conta sua vida nas ruas. Ele estudou até o ensino médio, tem vocabulário amplo e freqüenta lan houses da região. Religioso, dorme nas escadarias da catedral e sonhava em ser padre. Depois de perder a casa num incêndio, pediu a Deus para não ter mais nada de material. “Meu sacerdócio é nas ruas.”

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Felipe Frazão, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e cursa Ciência Política na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio)

Gustavo Coltri Skrotzky, de 25 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Daniela Schmid, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)

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