Comer ovo azul
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Comer ovo azul

Redação

01 Novembro 2010 | 17h33

Outro dia, na discussão do tema do caderno final dos focas, surgiu a ideia “Extremos de São Paulo”, cuja apuração levaria os repórteres a cidades da Grande São Paulo, como Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Embu, Guarulhos e Mauá. Antes de saber que a sugestão não tinha originalidade alguma, perguntamos à Carla Miranda, editora do caderno, se teríamos algum apoio do jornal, como transporte ou ajuda de custo para refeição.

– Não. Sinto muito, mas vocês vão ter de comer ovo azul.

Comer ovo azul é uma alusão à refinada gastronomia de boteco, com almoço rápido, barato e de duvidosa qualidade. Para os focas deste ano, virou um bordão para quando o jornalista se dá mal e tem de fazer algum sacrifício pela profissão, frequentemente sem o conhecimento nem a comiseração do chefe. A cada nova palestra com jornalistas, constatamos com certa apreensão que, pelo menos no começo da carreira, vamos comer muito ovo azul.

Um dos ex-focas que nos deu palestra, Roberto Almeida, atualmente é repórter na editoria Nacional do Estado e contou uma história de quando foi à Amazônia. Com uma equipe da Funai, ele e um fotógrafo do jornal viajaram por dois meses à procura de uma tribo indígena que nunca havia tido contato com outras sociedades. Em determinado momento do caminho, ele teve de comer, por questões de sobrevivência, cérebro de macaco. Justo ele, que achava o macaco um dos bichos mais bonitinhos do zoológico.

– Era isso ou desmaiar de fome no meio da trilha e atrasar toda a equipe. Misturei com farinha e mandei pra dentro.

Apesar da experiência desagradável (ele contou que a consistência lembrava chiclete), não foi isso que mais marcou Almeida. Ficar dois meses na Amazônia, fazer matérias com formato mais literário e ter uma experiência de viagem desse jeito foram os melhores resultados de ter dado um passo à frente no momento certo.

Ou 17 passos à frente, como ele próprio afirmou ter feito. Mostrar vontade de trabalhar é essencial no começo da carreira. Às vezes, essa disposição vai te fazer comer ovo azul; mas, para quem realmente gosta da profissão, fazer uma boa matéria justifica alguns sacrifícios.

Ricardo Santos, de 22 anos, cursa o último semestre de Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP)