Conheçam o Júlio Alencar
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Conheçam o Júlio Alencar

Redação

29 Novembro 2011 | 19h30

Clichê colossal: sempre quis ter um blog. Não só para fazer aquelas análises pretensiosas sobre temas que a gente acredita dominar, mas principalmente para exercitar a escrita. Depois das aulas do Paco Sánchez, lá no início do Curso, resolvi acreditar um pouco mais no meu estilo. Manter um blog seria uma boa forma de aprimorá-lo. Menos amarras, eu acho.

A verdade é que, há algum tempo, venho construindo um personagem que daria sentido a essa minha empreitada: Júlio Alencar, jornalista na meia-idade transbordando em amarguras. Elaborei o texto inicial, pensei em um nome sapeca e até criei um banner. Agora, me vejo em uma encruzilhada. Criar o blog ou não? A recepção ao presente post poderá me esclarecer. Portanto, caro leitor – se puder –, leia o texto abaixo e deixe as suas impressões. O Júlio e eu agradecemos.

O dia do surto e outras queixas – 1ª postagem

Tomáz segurava um copo de refrigerante quando pronunciou as seguintes palavras: “Bebida alcoólica! Jamais ousarei me acostumar com uma coisa tão desprovida de sabor”. Depois saiu, devagarzinho. Tomáz. Ele tinha tanta razão quanto alguém que prefere guaraná poderia ter, por isso continuei a entornar o meu vinho.

Fim do domingo, 23h47min. Aniversário de um companheiro de trabalho. O gosto forte do álcool em contato com as minhas glândulas palatinas – as poucas ainda em funcionamento – ajudavam a esquecer a iminência de mais uma dolorosa segunda-feira.

Entrar no estúdio e apresentar aquele jornal tinham sido atividades prazerosas em algum lugar da longínqua década passada. Hoje não mais.

A insatisfação estava assumindo dimensões paquidérmicas, beirando o abjeto. Saiba: nos últimos meses, o primeiro pensamento que me vem à mente quando eu acordo é o quanto foi estúpida aquela minha simulação de asma no exame para admissão no Exército. Há 22 anos. Tenho a impressão de que teria sido um ótimo major; o mais condescendente deles, sem dúvida, mas ainda assim um ótimo major.

Proteger territórios e fronteiras, todavia, sempre me pareceu uma atividade muito mais exaurível do que escrever textos e aparecer na televisão. Acabei, então, me tornando um jornalista (explico melhor depois). Âncora do telejornal mais assistido da cidade, salário abaixo do razoável até mesmo para um tocador de cítaras na Macedônia, liberdade de criação zero e o mesmo prestígio que um garoto de 3ª série experimenta quando tenta beijar a boca da professora gostosa de ciências e tudo o que consegue é um-leve-roçar de-lábios-no-maxilar-direito. Ah, a proporção que o embaraço pode assumir na vida de uma pessoa…

Meu nome é Júlio Alencar e além de um completo desafortunado, recentemente descobri que as entrevistas do “meu” telejornal não mais serão definidas por mim. Uma estagiária novata e de grande potencial parece ter mais tempo do que eu para “essas coisas sem importância”, assim me segredou a direção da emissora. Eles não precisam de álcool para tomar decisões equivocadas.

Quando cheguei à redação naquela segunda-feira, cumpri minha rotina de obrigações fingindo ser um amigável urso de pelúcia. Eu sou bom, acreditem. Ao entrar no estúdio, porém, e depois de ter apresentado três blocos de notícias sobre buracos de origens enfadonhamente óbvias e postos de saúde tão úteis quanto os quatro dentes sisos de um gato siamês, senti pela primeira vez na vida que o meu corpo era formado por um instável emaranhado de mitocôndrias pululantes.

Tudo o que elas desejavam naquele momento – individual e simultaneamente – era um pouco de privacidade, um pouco
mais de espaço, o que acabaria resultando na minha própria explosão, infelizmente.

Aconteceu logo depois que o entrevistado do dia respondeu de uma maneira para lá de evasiva ao meu questionamento (não era como se eu estivesse fugindo do assunto) sobre um possível aumento da pedofilia entre os usuários da internet. Aquela atitude dispersa me deixou tão perplexo que a próxima pergunta não poderia ter sido outra:

–E o senhor, já usou a internet para consumir pornografia?

Escândalo. Balbúrdia. O pessoal da redação me contou depois que eu fiz pelo menos mais umas quatro perguntas impróprias, algumas envolvendo termos da moda como ejaculação precoce e masturbação tântrica. Não me lembro. Para ser preciso, a última coisa da qual me recordo é do sorriso nos lábios de Tomáz, o câmera 3. Ele parecia bastante feliz por finalmente poder comprovar – tanto para mim quanto para si próprio – o quão destrutivas algumas doses de uísque podem ser. No final das contas, talvez tenha alguma razão. Um beijo para o meu pai, para minha mãe e para você, Tomáz.

Continua… Ou não.

Leandro Igor Vieira, de 26 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)