Desastre em Mariana marcou trajetórias de jornalista e cineasta
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Desastre em Mariana marcou trajetórias de jornalista e cineasta

Carla Miranda

18 Outubro 2016 | 17h48

Lobato e Jungle falam sobre suas coberturas no rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, em Mariana

Lobato e Jungle falam sobre suas coberturas no rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, em Mariana

Por Elisa Clavery e Paulo Beraldo

Na segunda palestra da Semana Estado de Jornalismo, com o tema “Meio ambiente em perigo: o desastre de Mariana”, o repórter Paulo Henrique Lobato, do Estado de Minas, e o cineasta Tadeu Jungle falaram sobre as coberturas do caso do rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, que deixou dezenas de mortos.

O jornalista destacou que a mídia teve um papel fundamental na hora de cobrar o poder público. “Se houvesse uma sirene no local do desastre, provavelmente não teria morrido ninguém (no distrito) de Bento Rodrigues”, disse Lobato.

Para ele, a experiência trouxe mais do que resultados profissionais. “Foi bom para darmos valor à vida”, afirma. Lobato explicou que o jornal financiou viagens para as regiões afetadas pela tragédia e que, em alguns locais, ele chegou dias antes mesmo da lama. Essa foi, para ele, uma oportunidade de encontrar boas histórias pelo caminho.

“É um espírito de jornalista que a gente tem que ter. As histórias estão na nossa cara para a gente contar. É covardia guardar essa história só para a gente”, diz Lobato, que citou também uma série de matérias que fez, em 2013, inspirada nos 60 anos da viagem de Guimarães Rosa pelo Norte de Minas, o “Sertão Grande”.

“O jornalista é um servo da sociedade. A gente vai conseguir um sucesso pessoal apenas se fizermos um trabalho correto e se esse trabalho tiver o objetivo de ajudar a sociedade”, acredita.

Já Jungle produziu um documentário em realidade virtual sobre o desastre, chamado “Rio de Lama”. Segundo o cineasta, a realidade virtual veio para ficar e deve revolucionar o jornalismo. 

Sobre sua experiência entrevistando moradores de Bento Rodrigues, Jungle diz que eles narravam um “verdadeiro paraíso” antes da tragédia. Agora, eles têm a certeza de que não vão voltar a morar lá nunca mais. “De um dia para o outro, você perdeu seus vizinhos, seus amigos, suas casas. A tragédia não vai ser esquecida”, diz. “No meu documentário, tentei unir o vazio da tragédia com as boas lembranças dos moradores”.

De acordo com Jungle, deveria ser feito um memorial para lembrar que a tragédia ocorreu, e para que ela não se repita. “Até hoje ninguém foi culpado”, afirma. O cineasta também mostrou aos participantes um trecho do seu documentário

Respondendo às perguntas do público, Lobato diz que foi impossível não criar vínculos com os moradores da região, mas que isso não atrapalhou o trabalho. O jornalista denuncia, ainda, a preocupação de que esta corre o risco de não ser a única barragem a se romper. “Falta mão de obra no Brasil para fiscalizar”.

Para Jungle, o vídeo é a grande aposta para a comunicação. E destaca vantagens em se trabalhar com realidade virtual. “É simples e barato, vai ser popular, é inevitável. As câmeras são mais baratas”, acredita.

O desastre de Mariana vai completar um ano no próximo dia 5, e Lobato lembra que os jornalistas continuam acompanhando o caso. “Vários veículos em Minas já têm cadernos prontos para um especial de um ano do desastre em Mariana”.