Diretor da Ciclocidade propõe restrição a uso de carros
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Diretor da Ciclocidade propõe restrição a uso de carros

Carla Miranda

20 Outubro 2016 | 21h42

Daniel Guth é diretor da Ciclocidade.

Daniel Guth é diretor da Ciclocidade. Foto: Willy Delvalle/Estadão

Por Willy Delvalle

“Tem faltado um enfrentamento sério sobre políticas de restrição ao uso do carro”, avalia o diretor da Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade) Daniel Guth sobre os debates de mobilidade urbana que dominaram as campanhas eleitorais em São Paulo neste ano. Para ele, as discussões foram “emburrecedoras”. Daniel afirma, mesmo assim, que a maioria da população compreendeu a importância de medidas como reduzir a velocidade nas marginais, medida que ele acredita que o prefeito eleito João Doria (PSDB) possa não reverter, contrariando o que prometeu.

Daniel defende que, desde a década de 1990, sabe-se que o congestionamento de São Paulo tem a ver com o número de carros na rua. O problema, na visão dele, é que os governos incentivam esse uso. “Para usar transporte público, a gente paga uma parte da tarifa. O poder público subsidia a outra parte. Para circular de carro, o poder público paga toda a infraestrutura para você conseguir circular de carro”, argumenta. Ele menciona subsídios à gasolina como parte dessa política de “indução” ao uso de veículos automotores.

A questão, para Daniel, é que a sociedade entendeu a importância da política oposta. “Já há um consenso na cidade que a vida das pessoas é prioridade, em detrimento das velocidades”. Ele cita que 60% da população aprova as infraestruturas cicloviárias e que 90% da população aprova faixas exclusivas de ônibus, apesar de setores da sociedade, que, na avaliação dele, se sentem “ameaçados” com políticas inclusivas.

Daniel cita que a redução das velocidades nas marginais como uma questão necessária, tendo em vista que reduziram de forma imediata o número de mortes no trânsito. E que isso faz parte do compromisso assumido pela prefeitura junto à ONU para reduzir em 50% as mortes no trânsito, até 2020. Daniel indica que essa é uma tendência internacional das cidades. “Várias adotaram a agenda vision-zero, nenhuma morte no trânsito”.

O tema foi discutido por Daniel Guth nesta quinta-feira, junto ao jornalista do Estadão Fabio Leite, na Semana Estado de Jornalismo.

Enfrentamento ao “cartel”
Enquanto Daniel defende um “enfrentamento” às políticas de incentivo ao carro, o jornalista Fabio Leite, da editoria de Metrópole, aponta que nenhum prefeito até agora enfrentou o que chama de “cartel” dos ônibus. O jornalista questiona: “Se não fosse esse recurso, a tarifa seria muito mais cara ou está indo para o lucro dos concessionários? A gente não tem como provar, mas sabe que existe um cartel das empresas de ônibus”. Ele acredita que será difícil que o próximo prefeito “vá bater de frente” com empresários. “Até porque eles têm representatividade na Câmara Municipal”, argumenta.

Outro fator de dificuldade, aponta, é a vinculação às tarifas da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e do Metrô. “O metrô e a CPTM estão atrasando obra porque não têm dinheiro. Vai precisar de dinheiro público para congelar tarifa”, afirma.

Recentemente, João Doria (PSDB) afirmou que recorreria ao governo federal para obter o subsídio e evitar um aumento nas tarifas. Na visão de Fabio Leite, o novo prefeito dificilmente conseguirá.