E se o jornalismo deixasse de existir?
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E se o jornalismo deixasse de existir?

Redação

07 Outubro 2011 | 18h02

Não sei qual dimensão de cataclismo poderia viabilizar tamanho drama.  Tão pouco consigo definir minha utilidade em um mundo pós-jornalismo. Seria um zumbi de orelhas grandes, talvez. E mancaria. Balzac, escritor francês, certa vez declarou que “se a imprensa não existisse, seria preciso NÃO inventá-la”. Pode chamá-lo de sacana, se quiser; eu o chamarei de desiludido. Ora, imaginar o mundo sem jornalismo é o mesmo que pensar em sociedades estanques, impedidas de evoluir.  Um caos mais amplo, portanto.

De acordo com a Associação Nacional de Jornais (ANJ), existem hoje no Brasil cerca de 3.000 títulos, entre diários e semanais. Poderíamos relativizar, sem grande esforço, a qualidade de muitas dessas publicações. Duvidamos, também, da relevância de alguns dos programas noticiosos (vide Sônia Abrão) transmitidos pelas centenas de TVs e rádios espalhadas pelo País. O conteúdo publicado em certos sites e revistas levanta, do mesmo modo, as nossas suspeitas. Concordamos, no entanto, em um ponto: esses veículos são os responsáveis por tirar do sepulcro os mais bizarros casos de corrupção; são a voz de milhares de brasileiros que, todos os dias, arquejam ao fazer uso de um transporte público sucateado;  em boa parte do mundo, a imprensa é a segurança de que a democracia, por mais que violada, terá o seu momento de respiro, a sua chance de retorno.

Apocalipse

O assunto é sério, mas vale também uma análise despretensiosa. Se o jornalismo morresse, teríamos que suportar, entre outras bizarrices, o programa de humor do William Bonner – diário. Como perderíamos em crítica, as músicas do Calypso comporiam a playlist de mais pessoas, uma delas, quem sabe, o seu melhor amigo. O sentimento de indignação, tão bem aguçado pelo jornalismo, ficaria adormecido em muitas almas, o que tornaria cada vez mais aceitável a ideia de que cuecas são, sim, excelentes depositários do dinheiro alheio. Marília Gabriela se transformaria na estrela-mor da Globo, e todos teríamos que elogiar a sua desenvoltura como atriz, sob pena de parecermos ressentidos caso não o fizéssemos. Em resumo: uma total baderna.

Redenção?

Se é desesperador pensar na hecatombe acima, agora imagine: Paulo Maluf impune. Exploração de menores como opção de lazer. Seis meses para conseguir uma consulta no SUS. Wall Street desregulando o mercado financeiro. A ocultação dos segredos da ditadura no Brasil. O despotismo dos dirigentes do futebol brasileiro. Por fim, o buraco em frente a sua garagem. Do alto da minha arrogância, grito: ainda somos necessários. Se o jornalismo não existisse, Balzac, nós estaríamos desamparados. Sem esperanças. O exercício proposto é simples – quase superficial – mas assombroso o suficiente. É hora de roer as unhas, caro leitor, porque a possibilidade apresentada nestas linhas não é de todo improvável.

Leandro Igor Vieira, de 26 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

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