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Entre gasturas e aflições

Redação

06 Outubro 2011 | 23h00

Semanas atrás, Davi postou no Facebook uma dessas piadas sobre sotaques e expressões regionais. Um exemplo destacava-se entre os vários enumerados pelo pequeno texto: “Mineiro não sente agonia, ele sente gastura”. A frase, tão trivial, me pegou sem jeito.

No meu mineirês, gastura e agonia não fazem sentido contrapostas. Sinto gastura com a unha que é roída na minha frente, o sorvete gelado que faz doer até a raiz do cabelo, a cadeira que lamenta em tons agudos o movimento durante as palestras, e o respingo da água que recebe os talheres velozes e sujos do restaurante Puras.

A agonia é mais intensa, vem do aperto no peito sem motivo, da sensação de insegurança permanente, do medo de fazer algo errado. Desde o dia 1º de setembro, quando o Curso começou, as gasturas são corriqueiras e a as agonias
duradouras. Paco Sánchez me perguntou mais de uma vez nos poucos dias que ficou conosco: “Por que sofre tanto?”. Não era sofrimento – respondi – só aflição.

Profundo sentimento, a aflição é usual, comum e natural, especialmente entre focas. Foi o que Roberto Godoy disse há algum tempo, e Alexandre Gonçalves demonstrou com sua experiência diária. Um paradoxo: saber isso foi atormentador, mas um alívio. Lembrei-me de uma definição batida da nossa profissão, que até então subjulgava, e me acalmei. Se a inquietação com o mundo faz o jornalismo melhor, acredito (e espero) que a agitação faça o mesmo pelo jornalista. Ufa.

Juliana Deodoro, de 23 anos, cursa o último ano de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)