Entre pautas e rodas
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Entre pautas e rodas

Redação

22 Novembro 2011 | 20h00

A popularização das minivans no mercado automotivo, impulsionada em grande parte pelo público feminino no início dos anos 2000, deixou claro que as mulheres não só eram potenciais consumidores como também poderiam ditar tendências no setor – haja visto a proliferação nos últimos anos de modelos compactos, repletos de porta-objetos, com espaço interno otimizado e posição de dirigir elevada. Atualmente presentes em cargos executivos, linhas de produção, concessionárias e

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de comportamento, elas se destacam também nas redações jornalísticas de carros.

Formada na Universidade Católica de Santos (UniSantos), a jornalista Milene Rios escreve sobre o assunto há mais de três anos e já trabalhou nos portais Zap e G1 antes de ingressar no Jornal do Carro, onde permaneceu até o início deste mês, quando passou a integrar a equipe de produção do programa Auto Esporte, da Rede Globo. Em sua última semana no Grupo Estado, ela conversou com o Em Foca sobre o momento atual da indústria automotiva na entrevista a seguir.

Quando você começou a gostar de carros?

Foi quando eu terminei a faculdade e passei a trabalhar com o tema pela primeira vez. Antes disso eu não me interessava muito por carros, tanto que fui a última entre os meus amigos a tirar a carteira de motorista, aos vinte anos.

Como é escrever para um público em sua maioria masculino? 

Eu pensei que receberia críticas machistas dos leitores, mas isso não ocorreu. Eles leem o meu trabalho sem se importar se eu sou homem ou mulher, e isso é bem bacana.

Você já sofreu algum tipo de preconceito no meio automotivo?

Na verdade a maior repulsa é dentro do próprio setor, dos jornalistas que estão há mais tempo na área e olham torto para as mulheres do segmento. Entre os mais novos isso não ocorre. Aliás, todos os meus editores e a maioria dos meus colegas de trabalho foram homens e a relação sempre foi muito boa. É claro que, independentemente do sexo, sempre tem aqueles que trabalham e os que vão desfilar. Nós acabamos ficando um pouco queimadas pelas exceções.

Dizem que o brasileiro, quando troca de carro, privilegia design em detrimento de atributos como espaço interno e custo-benefício, por exemplo. Contanto, as vendas de veículos cujos desenhos são pouco elogiados – como o Renault Logan e o Fiat Mille, por exemplo – mostram o contrário. Quais são as características que você considera mais importante nos testes e comparativos?

Eu tenho de ser o mais imparcial possível e levar em consideração todos os itens do carro, até porque um deles pode ser crucial para a sua vitória ou derrota no comparativo. Claro que nem sempre o vencedor é o modelo que você escolheria, mas ele acaba ganhando por ter qualidades que a concorrência não possui. Se for colocar na ponta do lápis, X é melhor. Mas, cá pra nós, eu ficaria com Y. É difícil não se deixar emocionar pelos carros, há alguns em que é praticamente impossível achar defeitos, mas aí tem de colocar o pé no chão.

Quando eu dirigi o Mercedes-Benz SLS AMG, observei que a porta em formato asa de gaivota não era funcional para mim, que tenho 1,70 metros de altura e, sentada no banco do motorista, não conseguia alcançar a maçaneta da porta – eu precisei sair um pouco do assento, pegar a porta e puxá-la. Então sempre há alguma falha, mesmo nos melhores carros. Esse é o nosso trabalho, tentar identificar tudo que o veículo tem de positivo e negativo.

Então o carro vencedor do comparativo não é necessariamente aquele que o jornalista escolheria comprar?

Exatamente. Por isso há um espaço no JC para nós escrevermos a nossa opinião. Nos textos, a avaliação segue um conceito de avaliar todos os pontos, até aqueles que as pessoas geralmente não consideram muito relevante, como manutenção, seguro e pacote de peças. Esses três itens, por sinal, já decidiram muitos comparativos.

Há empate nos comparativos?

Empate não existe. Nem que seja por um ponto, um modelo deve ser superior ao outro, pois os carros são diferentes.

Segundo dados da Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores (Abeiva), houve uma queda de 41,2% na venda de carros importados em outubro em relação ao mês anterior. Qual é a sua opinião sobre o aumento do IPI nesses modelos adotado pelo governo federal a partir de dezembro?

Eu achei uma medida protecionista e que devia ter sido pensada de outra forma, incentivando as indústrias que atuam e apostam no País e diminuindo os impostos, como foi a redução do IPI em 2008. O mercado nacional mudou bastante desde a abertura para os importados, que além de trazer inovações tecnológicas, aumentaram a concorrência entre as empresas. As montadoras chinesas são um bom exemplo: elas ainda precisam melhorar, mas têm muitos recursos e estão dispostas a investir por aqui. Antes da chegada delas não havia carros com freios ABS e airbag duplo por menos de R$ 40 mil, aí elas oferecem isso e a maioria das marcas reposiciona os seus preços. Quem ganha com isso é o consumidor, sobretudo em tecnologia e segurança.

No Brasil, a questão do status social é bastante acentuada na hora de escolher um veículo. Por que isso ocorre?

Porque nosso mercado é emergente. Nós viajamos ao exterior e vemos como as coisas são baratas, como é possível comprar um relógio de marca, uma roupa de grife… O CrossFox aqui custa o preço de um Passat lá fora, é um absurdo. Nós pagamos muitos impostos, quando temos a oportunidade de comprar algo nos sentimos muito bem, pois tudo é muito suado e, felizmente ou infelizmente, vivemos no Brasil.

As montadoras vêm investindo na criação de motores menores e, ao mesmo tempo, mais potentes, econômicos e sustentáveis. Pode-se dizer que tais investimentos são uma resistência aos propulsores elétricos ou, na verdade, um passo em direção a eles?

Eu acho que os propulsores à combustão ainda tem muito a evoluir e os elétricos estão distantes não apenas de nós, mas do mundo inteiro, pois a sua implantação exigirá recursos altíssimos em postos de recarga, baterias e estrutura. Por isso a popularização deles ainda vai demandar algum tempo. Por outro lado, os motores híbridos, que combinam eletricidade e combustão, parecem estar mais próximos da nossa realidade.

Nossos modelos de entrada prescindem de itens básicos de segurança como hodômetro e limpador do vidro traseiro em suas configurações mais básicas. No balanço geral, a maior variedade de opções nesse segmento veio acompanhada de um aumento na qualidade dos carros oferecidos ao consumidor?

De fato os modelos de entrada pecam em qualidade. Há exemplos em que o comando manual interno de ajuste do retrovisor é opcional, ou seja, a pessoa tem de abaixar o vidro e colocar o dedão no espelho para regular. Não dá pra acreditar, pois eu estou falando do Fiat Uno, um carro que chegou todo moderninho e vem “pelado” assim. Eu não sei se a indústria nos fez assim ou apenas se adaptou às nossas atitudes, ou talvez um mix dos dois.

O consumidor brasileiro prioriza o preço, mas deveria ponderar a relação custo-benefício. Esse é o maior apelo das montadoras chinesas e coreanas, cujo crescimento em nosso mercado pode fazer com que a gente comece a repensar sobre as tranqueiras que devemos aceitar e as melhorias que podemos exigir. Acredito que o nosso comportamento mudará bastante após a entrada desses carros aqui.

O preço dos carros novos é bastante elástico no Brasil. Modelos com alta procura às vezes são vendidos com ágio antes mesmo do seu lançamento e, por outro lado, carros com baixa procura são reposicionados para uma categoria inferior. Isso ocorre somente por aqui ou também em outros países?

Em nosso mercado ocorre algo peculiar: os modelos antigos convivem com as suas versões atualizadas. O Hyundai Tucson é um exemplo: a sua produção parou no exterior e só continua aqui, em Goiás. A nova geração do modelo, que deveria ser homônima – assim como no resto do mundo -, ganhou por aqui o nome de Ix35 e foi reposicionada em uma faixa de preço superior. Eu poderia citar também o Ford Fiesta, que convive com o New Fiesta. O Fiat Uno Mille, que nos anos 80 era apenas um carro, agora virou dois: o Mille (velho) e o Uno (novo). As montadoras continuam investindo nos carros defasados pois eles vendem – e muito – em nosso país. A Chevrolet S10 não muda há mais de 15 anos e continua sendo a picape mais vendida. É essa mentalidade que talvez a invasão dos importados comece a mudar. Eu espero que os consumidores fiquem mais exigentes com os carros que compram e com o valor que pagam.

O trânsito em São Paulo vem batendo recordes históricos nos últimos anos, sendo o maior deles em 2009, quando a CET registrou 293 quilômetros de congestionamentos (cerca de 1/3 das vias monitoradas) na capital. Em que medida o aumento das vendas de veículos é benéfico para a população levando-se em consideração a morosidade das ações políticas em favor do transporte público?

Nós, que trabalhamos com carros, não podemos ser contra eles. Mas é fato que São Paulo incentiva muito o uso de automóveis, pois não existem investimentos suficientes em transportes públicos, há limitações para fretados… Eu acho que a venda de carros vai continuar crescendo, muitas famílias compram o primeiro carro antes de adquirir a casa própria, a cultura de possuir um carro é muito forte aqui. Contudo, as pessoas devem usá-los de maneira consciente, dando carona, por exemplo. No dia mundial sem carro, eu escrevi uma matéria sobre como dirigir de forma eficiente, gastando menos combustível e poluindo menos. Quando você muda a postura ao volante, você muda muita coisa.

Luiz Betti, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e cursa Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP)