Foto documental exige paixão e envolvimento
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Foto documental exige paixão e envolvimento

Redação

12 de junho de 2015 | 19h02

Por Rodolfo Mondoni

No último dia da 3ª Semana Estado de Jornalismo Ambiental, o fotógrafo documental independente, Érico Hiller mostrou como é possível contar histórias através de imagens e o papel da fotografia para trazer o debate sobre temas atuais e de interesse público. O fotógrafo apresentou aos estudantes seus projetos autorais, o primeiro deles iniciado em 2008, e que resultou no livro “Emergentes”. O objetivo desse ensaio era mostar através de imagens como é viver nesses países. Para responder essa questão, ele visitou grandes cidades da Argentina, Brasil, China, Índia, México e Rússia, com o intuito de registrar as tensões sociais e ambientais presentes nesses locais.

“O fotógrafo documental precisa se dedicar sobre aquilo que ele realmente acredita e gosta. Temas que estão na sua corrente sanguínea e que dão motivos suficientes para ele se dedicar durante anos se for preciso”, afirmou Hiller.

Rodolfo - Palestra Sexta

Fotógrafo Érico Hiller fala para estudantes na 3ª Semana Estado de Jornalismo Ambiental

Em 2011, o fotógrafo apresentou seu segundo trabalho, “Ameaçados – Lugares em Risco no Século 21”, com imagens de locais que correm o risco de sofrer grande impacto ou até mesmo desaparecer, em função de mudanças climáticas e da ação do homem. Na Groenlândia, Hiller registrou como o aquecimento global tem causado o derretimento das geleiras e mudanças drásticas na paisagem e, consequentemente, na vida de seus habitantes. O aumento da temperatura também ameaça a cobertura de gelo de locais como o monte Kilimanjaro, na Tanzânia. Esse derretimento tem causado o aumento do nível dos oceanos que ameaçam regiões como a Maldivas, arquipélago que corre o risco de ficar de baixo d’água e que também integra o projeto. Outra região escolhida foi o Vale do Rio Omo (Etiópia) onde a construção de uma hidrelétrica tem causado impactos na vida das populações tradicionais.

O Brasil também tem um representante nesse lista nada motivadora. O local escolhido foi a Mata Atlântica, que aparece por dois motivos. A floresta como um todo está ameaçada e muitas espécies podem ser extintas, considerando que esse território apresenta um dos maiores índices de biodiversidade do planeta.

Em 2014, a ONG internacional WWF lançou um relatório afirmando que nos últimos 40 anos, o planeta perdeu 50% de sua fauna. E na América Latina, a redução dos vertebrados foi de 83%. A extinção de uma espécie é o tema do projeto que o fotógrafo está trabalhando atualmente. “A Jornada do Rinoceronte” revela a situação desse animais de 50 milhões de anos que estão muito próximos de desaparecer, por resultado da caça ilegal.

Entre os diversos países que passou para seu mais novo projeto, Hiller esteve no Quênia, onde fotografou Sudan, o último rinoceronte branco macho do mundo. O animal é vigiado por homens armados 24 horas por dia e seu  chifre foi removido para afastá-lo do comércio ilegal. No mercado negro, um chifre de marfim rende até 75 mil dólares por quilo. Sudan é o único macho da espécie que possui apenas 4 fêmeas no mundo, duas delas vivem na mesma reserva que ele, e as outras estão em zoológicos, em San Diego (Califórnia) e na República Tcheca.

Sudan, o último rinoceronte branco do mundo. Foto: Érico Hiller

Sudan, o último rinoceronte branco macho do mundo. Foto: Érico Hiller

Tênue Linha é o terceiro e mais recente projeto de Érico Hiller. Nele, o fotodocumentarista registrou quatro cidades que passaram por tragédias ou fatos históricos que marcaram o local e a vida de seus moradores. Entre 2012 e 2013, Hiller visitou Berlim (Alemanha), Nova York (EUA), Kigali (Ruanda) e Havana (Cuba). Em Berlim, seu foco era documentar como o muro de Berlim, que dividiu a cidade até 1989, mudou a vida das pessoas. Ruanda foi escolhida por causa do genocídio que tirou mais de 1 milhão de vidas em apenas 100 dias em 1994. A Revolução Cubana e os atentados terrorista de 11 de setembro de 2001, em Nova York, também fazem parte desse trabalho.

Hiller disse ao Blog em Foca que quando terminar o trabalho sobre os rinocerontes, pretende fazer um projeto sobre a água, todo em P&B. “Esse trabalho ainda está totalmente no plano das ideias, talvez eu comece a trabalhar nele ano que vem”.

Financiamento

Érico Hiller fica meses e até mesmo anos em cima da mesma história. Para produzir o “Ameaçados”, por exemplo, ele teve de fazer 10 viagens, em 1 ano. Além disso, alguns livros tem mais de 200 páginas, o que gera um custo de até R$ 200 mil somente na impressão de todos esses exemplares. Ele disse que utiliza financiamentos através de leis de incentivo e patrocínio direto, tanto de empresas como de pessoas físicas.

“Eu gosto de ir atrás dos meus financiamentos, e conversar com meus patrocinadores para deixar bem claro o que eu pretendo. Essa é uma competência que os fotógrafos e os escritores acabam adquirindo”, explicou.

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