Ideias além da academia
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Ideias além da academia

Carolina Stanisci

12 de dezembro de 2011 | 08h00

Anatomia da cabeça cortada transversalmente, gravura do dinamarquês Thomas Bartholin (1616-1680) datada de 1673. Crédito: BrainBlogger / Creative Commons.

Parece que não sou tão louco. Naquele que parecia e pretendia ser meu último post neste blog, perguntei se o melhor para a carreira jornalística era a especialização ou um aprimoramento intelectual mais generalista. A partir daquela dúvida, busquei respostas com dois repórteres de idades, especialidades e experiências muito distintas.

Roberto Godoy, de 60 anos (geração “Baby Boom”), era então Repórter Editor Especial de “O Estado de S. Paulo” — “e avô do João”, conforme fez questão de acrescentar. Essas atribuições, porém, não chegam nem perto de fazer jus ao real status dele. Godoy é o jornalista mais especializado e experiente do País na área bélico-militar. E não, não fez algo como mestrado ou doutorado na área. Não concluiu sequer o ensino superior. Foi só até o quarto semestre de Sociologia na Universidade de São Paulo (USP). Da faculdade de jornalismo, passou longe. “Em 1979 recebi do então editor chefe do Estado, Miguel Jorge, a incumbência de acompanhar o setor. Dediquei-me a isso aplicadamente. Talvez por causa dessa atitude tenha sido bem sucedido na missão. Nunca fui entusiasta das artes militares, colecionador de miniaturas etc.”, me contou por e-mail, meio que considero mais fácil e menos incômodo para abordar jornalistas veteranos, aparentemente sempre ocupados. As maneiras de enriquecer o próprio repertório intelectual se resumem com hábitos cruciais para qualquer bom repórter, seja dos anos 1970 ou de hoje: “Muita leitura. Estudo da área (na qual se quer se especializar)”, explicou. “Busquei conhecimento de história, estratégia, geopolítica, diplomacia, organização militar, conceituação de Defesa e tecnologia especializada. E, naturalmente é preciso abrir, manter e atualizar um grupo de fontes confiáveis”.

Gabriel Toueg, de 32 anos (geração Y), é Editor de Internacional do Estadão.com.br. Graduou-se em jornalismo pela mesma instituição que eu, a Universidade Metodista de São Paulo, entre 1997 e 2004. O período mais longo no ensino superior — sete anos, em vez dos quatro que costuma se levar na faculdade de Jornalismo — se explica pelo fato de Toueg ter trancado o curso por dois anos. “Resolvi que viajar e trabalhar fazia mais sentido do que seguir estudando”. Foi quando esteve em Israel pela primeira vez, e aproveitou para fazer outras viagens, mais curtas, pela América Latina, pelos EUA e pela Europa. Após se formar, passou mais sete anos em Israel. Só voltou ao Brasil em março deste ano. “Comecei a trabalhar com internacional, de fato, quando estava lá. Fui ‘frila’ (repórter freelancer) de diversas publicações e correspondente por um ano (2008) da então rádio Eldorado (atual rádio Estadão ESPN)”, conta. ” Meu plano original ao chegar em Israel era fazer mestrado em História do Oriente Médio, mas mudei de ideia e de planos ao longo do tempo.” Toueg tinha dificuldades com o hebraico à época, mas agora domina o idioma e estuda árabe. Reflexos da afinidade com a cobertura do cenário internacional? “Foi uma soma de coincidências, mas quando estudava jornalismo não tinha essa ideia definida na cabeça. A escolha veio naturalmente e hoje, sem dúvida, Internacional é a editoria com a qual eu mais me identifico.”

Esses dois exemplos me influenciam muito por virem, sim, de profissionais que admiro — Godoy foi um dos palestrantes mais queridos da 22ª turma do Curso Estado de Jornalismo, que chegou ao fim na última sexta-feira, 09/12; e Toueg foi um dos melhores editores que tive durante meu rodízio pelas redações do Grupo Estado —, e também porque não excluem a busca por conhecimento por meio da academia. Não a rejeitam, apenas a dispensam (por enquanto…). Ou seja: a sabedoria reconhecida por instituições é importante, mas tanto quanto a sabedoria vinda do trabalho prático, reconhecida pelo mercado. Toueg e Godoy me inspiram a ser um jornalista melhor porque indicam o ofício jornalístico como, em si mesmo, uma fonte de conhecimento. E esse foi, de longe, o motivo maior que me levou a essa escolha profissional. Trabalhar para aprender um pouco mais todos os dias e, melhor ainda, dividir isso com o maior número possível de leitores, internautas, ouvintes, telespectadores etc.

José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo