As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Medo da rua

Redação

16 Setembro 2011 | 20h16

Hoje aproveitei nossa última tarde livre para exibir aos colegas focas o filme que produzi como trabalho de conclusão de curso de Jornalismo: um documentário sobre mulheres de presidiários. Enquanto a classe assistia ao material, eu lembrava das dificuldades enfrentadas por mim e meus colegas de faculdade no decorrer do processo, especialmente durante o trabalho de campo e apuração. Os piores momentos foram as primeiras visitas à calçada do centro de detenção, onde nossas futuras personagens acampavam antes de ver os maridos.

Era um ambiente totalmente estranho, a anos-luz da nossa zona de conforto. Chegávamos com as mãos enterradas nos bolsos, roxos de vergonha. Tínhamos de nos aproximar daquelas pessoas que nos olhavam desconfiadas, interagir com elas, conquistar a amizade e a confiança delas, para então termos acesso às suas histórias e transformá-las nas estrelas do nosso filme.

Custamos para quebrar o gelo, depois fomos progredindo e no fim deu tudo certo. A experiência me ensinou várias coisas, mas não a vencer o medo da rua. É um dos obstáculos que espero que o curso me ajude a superar. Em nossos primeiros exercícios aqui, voltei a sentir na pele o peso da timidez. Uma das missões era conseguir um bom personagem no Parque do Ibirapuera e escrever seu perfil – ou seja, era preciso se aproximar de um completo desconhecido e fazê-lo se sentir à vontade o suficiente para abrir toda a sua vida para mim.

Em outra situação, tive que bolar uma pauta dentro de uma delegacia, e enfrentar o problema da falta de cooperação da fonte. O delegado só falaria comigo por meio da assessoria de imprensa, e mesmo o investigador relutou antes de topar a entrevista.

É claro que essas dificuldades são bem menores do que aquelas que encontraremos quando estivermos escrevendo no caderno de Cidades. Por enquanto, é “apenas” um curso, o resultado não vai ser publicado: não é “para valer”, e sim “para aprender”. Que bom que estamos tendo a chance de enfrentar nossos medos, de arriscar o trapézio antes que removam nossa rede de proteção. Espero aproveitar ao máximo essas oportunidades, pois sei que o bom jornalismo só se faz com uma boa apuração – sujando os sapatos, olhando no olho, usando o telefone o mínimo necessário. E, para isso, preciso perder o embaraço.

O que me consola é saber que não estou sozinho. Na conversa que tivemos ontem com os ex-focas Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise, eles contaram que até hoje passam por um desconforto parecido em algumas situações, mas aprenderam a driblar a inibição. Isso me encorajou a seguir em frente. Tornar-se jornalista é aprender a vestir a camisa como tal.

Thiago Lasco de Magalhães, de 33 anos, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero