Menos amor, por favor
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Menos amor, por favor

Redação

22 Setembro 2011 | 08h00

Foto: Paulo Zapella / Creative Commons

Já faz mais ou menos dois anos que frases de espírito libertário (e um tanto inocente demais, talvez) começaram a ser pichadas pelas ruas de São Paulo com apelo bastante direto: “Mais amor por favor” (assim mesmo, sem vírgula) e “O amor é importante. P….”. Tocantes pela dupla marginalidade — a legal, se levada em conta a proibição de intervenções urbanas desse tipo; e a psíquica, vinda do caráter inusitado dessas máximas —, as pichações viraram hits em redes sociais voltadas para o compartilhamento de imagens, como Flickr e Tumblr. No universo jornalístico, porém, os focas temos aprendido que não há tanto espaço para tais licenças poéticas.

Menos amor, por favor, na hora de redigir notas, notícias, reportagens, matérias especiais.

O jornalista deve tentar descobrir o maior número possível de informações sobre o tema a que está se dedicando. Uma premiada repórter da área de saúde me disse, certa vez, que o ideal para a boa reportagem é apurar uma quantidade de dados que, se impressos, seriam capazes de encher uma sacola daquelas grandes das lojas de departamento.

Mas, na hora de escrever, o foco muda. Mais que apurar, deve-se depurar. Ou seja, selecionar as informações que realmente importam no dia (para o caso de jornais diários) ou no momento (para rádios, portais, agências de notícias etc.) em que se veicular a notícia, e hierarquizá-las.

Não se pode contar com a devoção espontânea do leitor/ouvinte/internauta/cliente. Ele raramente se sentirá tão interessado quanto o repórter em saber os pormenores caricatos do processo de investigação jornalística. Por isso — e pude constatar tal consenso nas falas de vários dos profissionais veteranos que já lecionaram na 22ª edição do Curso Estado de Jornalismo —, respeitemos o espaço destinado a cada notícia. Discutamos com os editores quando julgarmos que um assunto ganhou mais relevância para o público (por quaisquer motivos) e, portanto, merece aprofundamento. Mas, no geral, melhor não cultivar tanto afeto pelos nossos próprios textos. Tenhamos paixão pelo ofício jornalístico sem obrigar o restante da sociedade a “adorar” nossos processos de apuração. Por favor: menos amor.

José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo