Minha primeira morte
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Minha primeira morte

Redação

16 Novembro 2010 | 18h27

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Andy Irons era considerado um dos maiores do surfe

Foto: Joseba Etxaburu/Reuters – 15/5/2008

O fato causa impacto. Incrédulo, leio na internet a nota bancada por uma revista americana: Morre, aos 32 anos, o surfista tricampeão mundial Andy Irons. Ele deixa o filho e a esposa, grávida de sete meses.

Funcionários de um hotel em Dallas, no Texas, encontraram o havaiano morto no quarto. Ele voltava de uma competição. Sequer pode disputá-la. Fragilizado pela dengue, relata a família, Irons deixou Porto Rico, mas não conseguiu embarcar no avião em conexão dos Estados Unidos para o Havaí.

Terça-feira, 21h12. Pulo da cadeira. Interrompo uma conversa. E corro. Saio da baia de Política e vou à editoria de Esportes. Por pouco não acho ninguém. As páginas estão fechadas. Dirijo-me aos editores, quase de saída: “Notícia de última hora…”

– Quem deu? – perguntam Gilson e Maluf, responsáveis pela editoria.
– Só uma revista americana, a Surfer. Outros atletas havaianos e profissionais do surfe comentaram no Twitter.
– Nenhuma agência internacional, Felipe?
– Não.

Alguns segundos de silêncio.

– Não dá pra bancar ainda. Temos de esperar um pouco. Mas vamos abrir a página.
– Vou checar e já trago novidades.

21h15. Começo a apurar. Pesquiso na internet. Só o mesmo site mantém a informação. Abro minha agenda. Representantes do circuito mundial no Brasil ouviram falar, mas não têm mais informações. Tento contato com os patrocinadores do atleta. Nada feito. Ninguém atende. Solução: telefonar para o Havaí, claro.

“Jodi?”, pergunto pela diretora de imprensa do escritório da Associação dos Surfistas Profissionais (ASP). Ela não está na sala. Apresento-me e peço o telefone direto.

Primeira tentativa. Segunda… “Hello!” Pronto. Consegui. Apresento-me mais uma vez. A situação é desconfortável. Introduzo o assunto com calma. Sem alarde. “Sim, é verdade”, ela responde. Ao que a conversa segue, objetivamente, por mais quatro minutos.

21h30. Corro de volta. Caiu parte da reportagem sobre a Fórmula 1. A página está sendo escrita pela repórter Amanda Romanelli. Lead e um perfil breve, composto com foto de arquivo, bem grande, no alto, à direita. Memória, lê-se no topo. 1978-2010. Acrescento as informações e o depoimento de Jodi. Recuperamos parte de uma exclusiva com Irons publicada este ano no Estadão.

Concluímos o trabalho por volta das 22h. Outros sites começavam a repercutir, mas as agências ainda silenciavam. No dia seguinte, soubemos por elas que a perícia encontrou frascos de remédio ao lado da cama, motivo pelo qual especula-se overdose de um medicamento semelhante à morfina, para aliviar a dor. A família rejeita a versão – penso se não nos precipitamos –, mas o resultado dos exames vai demorar 90 dias.

Somente quando paro, percebo o contraste: dois dias antes, fizemos uma matéria sobre a brasileira Isabela Sousa, de 20 anos. Ela havia conquistado o Campeonato Mundial de Bodyboard na Venezuela. O trabalho foi parecido: apuração a distância, ligações internacionais, um esporte pouco badalado em destaque no jornal. Jamais imaginaria, porém, que dali a pouco, traria uma daquelas notícias que ninguém gosta de dar.

Fiquei com a sensação de ter feito o trabalho correto. Nada mais. E talvez seja assim que o jornalista deva se sentir. Fui pra casa um tanto perplexo com a morte inesperada, mas com o dever social cumprido.

Felipe Frazão, de 23 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e cursa Ciência Política na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio)

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