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No 2.º ano da lei, ensino de espanhol nas escolas públicas ainda tem falhas

Redação

11 de dezembro de 2011 | 19h17

* Esta reportagem foi um exercício para o Curso Estado

“Numa quinta-feira de novembro, um grupo de adolescentes com idades entre 15 e 17 anos fez uma festa diferente. Com maquiagem profissional, eles cobriram o rosto de branco, pintaram de preto o nariz e a região dos olhos e desenharam dentes ao redor dos lábios. Pareciam caveiras de filme de terror. No cardápio, havia guacamole, a famosa pasta mexicana à base de abacate. No som, salsa e outros ritmos latinos. A ideia era celebrar o Día de Los Muertos, festividade comum no México e em vários países da América Central. A cena teria sido menos insólita se não tivesse acontecido dentro de uma escola pública de São Paulo – e em horário de aula.

Os alunos do 3.º ano do ensino médio da Escola Municipal Vereador Antônio Sampaio, em Santana, zona norte, participavam de uma atividade promovida pelo professor de espanhol, Marcelo Carlos Ferraz, que faz o que pode para motivar a turma. “Aqui, você tem de rebolar. Se ficar só na gramática, o aluno não se interessa”, diz. Segundo ele, a rede municipal não entrega material didático para os docentes. Ferraz improvisa tarefas a partir de pesquisas feitas pelos alunos na internet. “Eu e dois colegas lemos textos sobre (o líder venezuelano) Simón Bolívar, escrevemos um roteiro e fizemos um vídeo para a classe”, conta o estudante Ângelo Augusto Crispim Martins, de 17 anos.

O ensino de espanhol nas escolas é uma imposição da lei federal 11.161, de 2005, que entrou em vigor no ano passado. Ela obriga toda a rede pública a oferecer aos alunos a opção de aprender a língua de Cervantes. Em São Paulo, as 8 escolas de ensino médio da rede municipal começaram as aulas no ano passado. O curso é de duas horas por semana, durante os três anos do ensino médio. Embora conste na lei que a matrícula é facultativa, em escolas como a Professor Linneu Prestes (em Santo Amaro, zona sul) e a própria Antônio Sampaio a disciplina foi incorporada à grade regular de todos os alunos. O que não é necessariamente uma vantagem. “O optativo funciona melhor, porque aí só faz o curso aquele aluno realmente interessado”, afirma Ferraz.

Centros de línguas

Já na rede estadual, apenas 795 das 3.867 escolas ensinam espanhol – 120 delas na capital. São duas aulas por semana, no período de um ano, e somente na primeira série do ensino médio. Para os alunos de escolas que não oferecem espanhol, a secretaria da Educação mantém 144 centros de línguas, chamados de CELs. Neles, o curso tem quatro aulas semanais e dura três anos.

Na opinião de Maria Izabel Azevedo Noronha, presidente da Associação de Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), os CELs existentes não são suficientes para suprir a demanda. “Eles têm uma área de abrangência limitada e, em 2010, alguns até fecharam. Se tivesse um em cada escola, seria ótimo. Mas poucas diretorias de ensino têm CELs.”

A solução dos centros de língua também é criticada por Graciela Foglia, vice-presidente da Associação dos Professores de Espanhol do Estado de São Paulo (Apeesp). Ela afirma que o ensino de um idioma na escola não tem como única finalidade o mercado de trabalho. “Existe também uma função educacional, ligada à formação do cidadão. Por isso, só faz sentido se houver integração entre a língua estrangeira e as demais disciplinas. O currículo dos CELs não tem essa integração.” Segundo Graciela, como a secretaria estadual aposta todas as fichas nos centros de línguas, nas poucas escolas que incluem espanhol na grade os cursos são “precários”.

Desarticulação

Maria Izabel, da Apeoesp, reclama que a pasta esperou o fim do prazo de cinco anos concedido pela lei para tomar as providências necessárias. “Quando saiu a obrigatoriedade, a secretaria fez corpo mole, não deu importância. Foi uma posição política, ela não se preparou.”

Para agravar a situação, os salários oferecidos não estimulam a vinda de professores de espanhol para a escola pública, diz Mozart Neves Ramos, consultor do movimento Todos Pela Educação. “Muitos preferem a pós-graduação. Uma bolsa de mestrado paga R$ 1,3 mil por mês, enquanto quem dá 40 horas de aula na rede pública ganha apenas R$ 1 mil”, compara.

Graciela ressalva que não é possível saber se realmente faltam professores no mercado, porque o governo estadual nunca abriu concursos. “É necessário que se façam concursos para verificar isso. Se houver essa carência, cabe ao governo articular planos emergenciais de formação junto às universidades públicas.”

Para a pedagoga Paula Louzanno, consultora da Fundação Lemann, a língua espanhola foi incluída no currículo escolar de forma desordenada, assim como aconteceu com filosofia, sociologia e várias outras disciplinas que são objeto de emendas à Lei de Diretrizes e Bases que tramitam na Câmara dos Deputados. “Os educadores são peça fundamental nesse debate. Mas a discussão não se deu no âmbito do Ministério da Educação, e sim no Congresso Nacional, por meio de projetos de lei como esse do espanhol.” Paula vê nessa manobra um lobby para garantir trabalho a certas classes profissionais. “Os gestores (as secretarias) não foram chamados a participar, não houve debate para se analisar a viabilidade, a disponibilidade de professores. Aí se joga o problema no colo do gestor, que é obrigado a administrar isso.”

Enquanto a oferta de espanhol na rede estadual permanece estagnada, os alunos das escolas da Prefeitura pegam gosto pelo idioma. Muitos escolheram fazer as questões de espanhol na prova do Enem, em vez de inglês. “Os alunos que fizeram as questões de espanhol no exame foram muito bem”, conta Lucia Helena de Moraes Cabral, professora da escola Linneu Prestes. Em 2012, a rede municipal deve ganhar novos professores, selecionados por meio de concurso feito neste ano, além do material didático, esperado por alunos como Karine Cardoso dos Santos, de 16. “Quando tivermos um livro, poderemos estudar em casa e nos aprofundar muito mais.”

Thiago Lasco de Magalhães, de 33 anos, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero