Notícias do front
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Notícias do front

Redação

05 Novembro 2010 | 19h45

lourival.jpg

O repórter especial do Estadão Lourival Santa’Anna / Foto: Lucas Sampaio (foca 21)

O sorriso tímido e o olhar que insiste em procurar o chão confundem o interlocutor prestes a iniciar uma conversa com um jornalista que viajou mais de 40 países em busca de grandes acontecimentos históricos e esteve presente nos mais relevantes conflitos armados dos últimos anos.

No lugar de um discurso heroico e intenso, Lourival Santa’Anna – repórter especial do Estadão há quase dez anos – começa a narrar os bastidores de suas coberturas por meio de gestos comedidos e de um tom de voz quase silencioso.

Imagens da Guerra do Líbano, de 2006, ilustram as primeiras histórias contadas sobre os desafios de uma apuração em meio ao fogo cruzado. Entre o relato de uma noite sob um bombardeio e do longo dia em que cruzou a fronteira para Tskhinvali, na Ossétia do Sul, os gestos se intensificam e apresentam outro Lourival – um sujeito disposto a arriscar a própria vida pela notícia que pode escapar entre um míssil e outro, um jornalista que saltou do carro em movimento para fugir da morte.

Aos poucos, o repórter brasileiro com cara de ossetiano vai deixando escapar a timidez e os pormenores de sua rotina em meio ao caos. A obsessão pelos detalhes dos cenários presenciados e a disposição para viver a realidade de cada país – longe dos “safáris jornalísticos da imprensa internacional” – ajudam a explicar a sensibilidade transmitida em cada matéria assinada por Lourival.

Fotos de brinquedos, óculos, cartazes e outros objetos que sinalizam as vidas vividas antes dos escombros incitam a pergunta inevitável: como não enlouquecer em meio a tanta tristeza?

“Me desligo emocionalmente. Quando estive no Haiti, após o terremoto, cheguei a evitar uma música clássica no rádio para não me humanizar. Só começo a sentir quando eu volto.”

Já quase à vontade diante de interlocutores embevecidos com suas histórias, Lourival confessa que sente, sim, medo de morrer nos conflitos. Em 2010, ele completa duas décadas no Estadão, onde desfruta de prestígio e de um histórico nos cargos mais importantes do jornal, mas sabe muito bem o que o motiva a sair de sua zona de conforto e retornar aos campos de batalha.

“O dia a dia nos anestesia e a gente acaba esquecendo as coisas que realmente importam. Eu gosto de ver a natureza humana em seu extremo para nunca me afastar dessas questões.”

Érica Saboya, de 24 anos, cursa o último semestre de Jornalismo na PUC-SP

Mais conteúdo sobre:

Érica SaboyaLourival Sant'Anna