Novo velho problema: crise ambiental na Amazônia e Mata Atlântica
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Novo velho problema: crise ambiental na Amazônia e Mata Atlântica

Redação

10 de junho de 2015 | 16h01

Por Estevão Taiar, Nana Soares, Rafaela Malvezi e Renato Alban |

O desmatamento da Amazônia e da Mata Atlântica pode não ser novo, mas continua atual. A situação de dois dos mais simbólicos ecossistemas brasileiros foi o tema do segundo dia da Semana Estado de Jornalismo Ambiental, nesta quarta-feira, dia 10. O evento, organizado pelo jornal O Estado de S. Paulo em parceria com a Tetra Pak, conta com a participação de especialistas, jornalistas responsáveis pela cobertura de meio ambiente e mais de cem estudantes de todo o Brasil.

Luis Maurano, tecnólogo do Inpe

Luis Maurano, tecnólogo do Inpe

Tecnólogo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Luis Maurano abriu o ciclo de palestras detalhando parte das medidas mais recentes que o governo federal tem adotado para combater o desmatamento da Amazônia. Os desafios de coibir a exploração excessiva da fauna e da flora da região são proporcionais ao tamanho da maior floresta tropical do mundo. De acordo com o último balanço do próprio Inpe, entre julho de 2013 e julho e 2014 foram desmatados na região 4.848 km², área equivalente a 680 mil campos de futebol.

“Há alguns anos era permitido retirar 50% da flora de uma propriedade na Amazônia. Hoje você só pode desmatar 20%. Essa mudança nasceu a partir das pesquisas do Inpe”, diz.

Co-fundadora do site Amazônia Real, a jornalista Elaíze Farias

Co-fundadora do site Amazônia Real, a jornalista Elaíze Farias

No entanto, o caminho até que seja encontrada uma solução é longo.”Nós não temos poder fiscalizatório ou para dizer se o desmatamento é legal. Apenas levamos os números às autoridades competentes. E com os dados em mão, nem sempre é simples saber quanto daquele desmatamento está dentro da lei”, admite.

“Há alguns anos era permitido retirar 50% da flora de uma propriedade na Amazônia. Hoje você só pode desmatar 20% – Luis Maurano, tecnólogo do Inpe

Co-fundadora do site Amazônia Real, a jornalista Elaíze Farias mostrou para os estudantes algumas da dificuldades de cobrir de maneira independente os problemas ambientais e sociais da região. O portal funciona com a parceria da Ford Foundation e doações particulares.

“Fazer grandes reportagens lá é muito caro. As viagens são quase todas de barco. Fizemos uma matéria perto de Manaus e, mesmo assim, gastamos R$ 3 mil”, afirma.

“Outro problema é que fala-se muito do fim da fauna e da flora e do desmatamento da Amazônia. Mas fala-se pouco das populações da região: aldeias indígenas, quilombolas, pequenos agricultores”, diz. “A minha sócia está fazendo há um mês uma matéria sobre tráfico de pessoas. Eu passei outro mês escrevendo e apurando sobre a crise hídrica amazônica, que, por incrível que pareça, existe.”

Mata Atlântica

O segundo bloco de palestras falou sobre um dos biomas mais devastados do país, a Mata Atlântica. Malu Ribeiro, jornalista e membro da SOS Mata Atlântica, reforçou a relação entre o desmatamento das florestas e a crise hídrica do estado de São Paulo: “Um hectare bem conservado é capaz de produzir 10 mil litros de água independente da quantidade de chuva, e o cenário de intenso desmatamento trouxe como consequência a crise atual”, disse.

Malu Ribeiro e Silvia palestraram sobre a preservação da Mata Atlântica

Malu Ribeiro (no centro) e Silvia Martinez (à direita) palestraram sobre a preservação da Mata Atlântica

Uma enquete organizada pela ONG, com 17.111 usuários do site ReclameAqui, constatou que 44% pessoas apontavam o desmatamento da Mata Atlântica como causa da crise hídrica. Segundo a jornalista, a Região Metropolitana de São Paulo dá sinais de alerta há anos e a crise já era uma “tragédia anunciada”. Na bacia hidrográfica que forma a Cantareira, resta apenas 21,5% da vegetação nativa. E as áreas remanescentes encontram-se isoladas umas das outras, o que, segundo Malu, culmina em perda de diversidade e empobrecimento genético da floresta.

“A floresta atlântica reflete em água. Se não tem uma, não tem outra” – Malu Ribeiro, jornalista e membro da SOS Mata Atlântica

A jornalista também criticou fortemente o Código Florestal Brasileiro, que, em sua avaliação, deixa desprotegidas as matas ciliares, a vegetação que margeia os rios. “A floresta atlântica reflete em água. Se não tem uma, não tem outra”, pontuou.

Diretora e editora-chefe do programa Good News, da Rede TV!, Silvia Martinez foi a segunda palestrante do dia a abordar a preservação da Mata Atlântica. No ano passado, a jornalista venceu o prêmio SOS Mata Atlântica pela melhor cobertura sobre a preservação da floresta com uma reportagem sobre resgate de espécies raras de plantas na área desmatada para a construção do Rodoanel, em São Paulo.
“Quando estávamos fazendo a reportagem e acompanhando o trabalho dos biólogos, os tratores estavam do lado se preparando para derrubar tudo”, contou Silvia. Na palestra aos jovens jornalistas, ela disse que ficou receosa em fazer a pauta por ter sido sugerida pela própria Dersa (responsável pela construção do Rodoanel). “Concluímos que era nossa oportunidade de entrar no lugar e ver o que estava acontecendo”.
Questionada pelos universitários sobre o viés positivo do programa, Silvia afirmou que mostrar bons projetos em defesa do meio ambiente foi a forma que a equipe da Rede TV! encontrou para atrair espectadores sem deixar de mostrar problemas ambientais. “As imagens bonitas do nosso ecossistema enchem os olhos em um primeiro momento, mas temos responsabilidade na cobertura”.
A diretora do programa Good News também deu dicas para os estudantes: “Os repórteres não podem tomar partido, senão ficam tendenciosos. Nossa obrigação é apurar os fatos. É chegar no campo sabendo que não somos os especialistas”. Outro conselho de Silvia é que os jornalistas valorizem o trabalho em equipe e saibam identificar os bons projetos. “Mostramos (no programa) que é possível fazer um mundo diferente apesar de tantas bad news“, brincou.

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