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‘O Brasil não entendeu o que é a função da imprensa’, diz Eugênio Bucci

Carla Miranda

24 Outubro 2014 | 20h48

Por Raquel Brandão

Eugênio Bucci

No segundo turno das eleições a presidente, os candidatos Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) não aceitaram perguntas de jornalistas durante os debates. A imposição gerou discussão no meio jornalístico. Para Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, existe uma ilusão de que o jornalista é apenas um segurador de microfone e que isso o torna dispensável.

Focas: Nos debates, os dois candidatos impuseram que não houvesse perguntas de jornalistas. Você acha que a profissão tem encontrado mais barreiras?

Eugênio Bucci: Não. O que eu acho é que no senso comum existe a concepção de que o jornalista é um segurador de microfone, um transportador de declarações ou um difusor neutro de notícias. De acordo com isso, é super dispensável você ter um jornalista num debate. Se um candidato pode perguntar para outro, por que o jornalista precisa estar ali? Se é para fazer pergunta, o candi

dato mesmo pode fazer. E é aí que surge a ilusão de que o jornalista é um intermediário e que se puder ser direto é melhor.

Focas: O que se produz num debate sem jornalista?

EB: Se produz uma licença para o candidato poder lidar com os dados da maneira que ele bem entender, pois ele não tem compromisso com referência prática do cidadão comum. Ele pode jogar com os dados, da forma que ele acredite que favoreça os argumentos dele. Então, faltou no debate alguém que falasse: “Mas isso não está coerente” ou “Isso não funciona”.

Focas: Além de muitos assuntos que ambos não querem abordar e que só o jornalista perguntaria a eles, não?

EB: Exato. Porque o outro subproduto dessa ilusão que falei é que as pessoas ficam achando que a verdade vai emergir de um embate, de uma polarização até artificial. Então os pontos em comum não aparecem e cada um fica querendo mostrar que é mais combativo, determinado e corajoso do que o outro.

Focas: E como se posiciona a imprensa nessa situação?

EB: A razão de ser da imprensa fica fora de lugar. Ora, se o poder fala sozinho, por que a gente precisa de jornalista? O poder vai até dentro das casas das pessoas. O jornalismo é justamente o outro discurso. E é necessário para que o discurso do poder seja entendido e possa produzir sentido. Nessa perspectiva é que o momento é difícil. O Brasil não entendeu o que é a função da imprensa.

Focas: Como assim?

EB: As instituições brasileiras mostram isso. Ainda há, por exemplo, a censura judicial contra jornalistas. A Dilma entrou com pedido para suspender a circulação de uma matéria no site de uma revista. O Supremo negou o pedido. Ainda bem! O Supremo tem uma compreensão do valor da liberdade de imprensa. Mas, há poucas semanas, o Cid Gomes, governador do Ceará, pediu a suspensão da circulação de uma revista. Então, durante dois dias, o Ceará ficou sendo um Estado sem liberdade de imprensa. E é incrível a quantidade de autoridades do Poder Judiciário que consideram isso razoável.

Focas: Nesse caso, as novas tecnologias, que muitos veem como ameaça para o jornalismo, são um problema menor do que a compreensão da função da imprensa?

EB: Estou muito convencido disso. A tecnologia não tem nenhuma importância. Não é ela que ameaça o jornalismo. A tecnologia também está no escritório de advocacia e nem por isso alguém falou que o Direito fosse desaparecer.

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