O caminho do trem
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O caminho do trem

Redação

03 de dezembro de 2010 | 13h50

“Taran”, a porta está aberta. “Pipipi”, corra, a porta vai fechar. Talvez para quem não pegue trem, esses sons não façam o mínimo sentido. Mas desde que eu comecei o curso eles viraram parte do meu cotidiano. Chegou ao ponto de eu associar o apito das portas do trem ao toque de recolher de um romance que estava lendo sobre a independência de Bangladesh.

Passar três horas diárias dentro de um trem trouxe uma série de novas habilidades. Antes eu não conseguia ler em movimento. Agora até arrisco umas páginas em pé. Sempre lotado, aprendi também a dar as minhas primeiras cotoveladas.

Outro dia, o trem estava bem mais cheio que o convencional. As pessoas se empurravam e a discussão tomou um rumo além do “ô meu, cala a boca”. Um rapaz com boné de propaganda começou a gritar. “Tá vendo, vocês não sabem votar. Votaram na Dilma e os trens vão continuar cheios.” Nisso, um burburinho de opiniões tomou conta do pouco espaço com ar dentro do trem. Até que uma voz mais ousada retrucou. “Realmente vocês não sabem votar, não sabem nem mesmo as competências dos seus governantes. Quem administra os trens é o Estado e a Prefeitura de São Paulo.”

Pronto. O burburinho continuou e nada de novos rompantes de opiniões. O aperto e a mínima procura por um espaço venceram qualquer propósito de discussão política. O apito tocou, a porta abriu e o som do burburinho foi substituído pelo som dos passos apressados subindo as escadas. A mínima revolta tinha se dissipado com o atraso e a pressa de chegar rápido ao trabalho, ao ganha-pão diário. Cada um voltou a seguir sua vida.

Esse episódio ficou vários dias na minha cabeça. Não sei se como repórter ou como cidadã. Aliás, é possível separar o ser repórter do ser cidadão? Convenço-me que um fortalece o outro: precisamos aprender a olhar de verdade a nossa realidade e a dos outros. A ideia é quebrar ao máximo a barreira do olhar. Um exemplo clássico é o tratamento exótico que a mídia dá para a riqueza e a pobreza. “Veja que iate bacana de R$ 15 milhões.” “Olha a casa de taipa desse ribeirinho, ela pode esconder barbeiros.”

Acho que a grande busca jornalística é tentar sair do lugar-comum. Para isso, histórias do dia a dia, muitas vividas no caminho do trabalho (literalmente no caso do trem) e nem sempre na hora da reportagem, precisam ser observadas, cuidadas e analisadas. Afinal, já que não conseguimos mudar o mundo mesmo, será que não conseguimos nem ao menos melhorar um pouquinho a vida das pessoas que estão ao nosso lado?

(Ah, como vocês podem ver, as três horas diárias de trem também me deixam bastante reflexivas.)

Flávia Maia, de 23 anos, é formada Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB)

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