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O papel do canudo

Redação

11 Novembro 2011 | 20h35

Vira e mexe, amigos não ligados ao Jornalismo vêm perguntar como eu vejo o fim da obrigatoriedade do diploma. A mensagem subliminar embutida na pergunta é: a faculdade de Jornalismo não teria sido desperdício de tempo e dinheiro, até mesmo por eu já ter um diploma anterior na parede? Hoje em dia, eu tendo a pensar que o impacto da novidade é menor do que se pensa.

Não considero o curso indispensável. Em três anos e meio (descontando a preparação do TCC), ele precisa dar um arcabouço teórico e prático “de jornalismo” e também uma formação humanística, que acaba sendo mínima: borrifadas de cultura geral, respingos de antropologia e sociologia, pílulas de economia e política. O resultado é uma formação mais superficial do que a de quem cursou, por exemplo, Direito ou Ciências Sociais.

No fundo, o que o profissional vai conhecer a fundo são os assuntos sobre os quais terá de escrever no veículo em que estiver trabalhando. É na hora de colocar a mão na massa que ele vai passar a manjar de carros, investimentos ou plantas ornamentais. Da mesma forma, a familiaridade com conceitos e jargões do jornalismo cotidiano virá com a prática. As lacunas na formação serão supridas conforme a necessidade, com livros ou cursos pontuais e dirigidos. Afinal, a busca por informação, formação e atualização deve ser constante – como em qualquer outra profissão.

O que faz um bom jornalista não é o curso. São os jornais, livros e revistas que ele leu, os filmes e peças de teatro que viu, as viagens que fez, as pessoas que conheceu. É a bagagem de vida que ele acumulou e a cultura geral que absorveu – por conta própria, desde cedo, não apenas dentro da faculdade. É esse estofo de conhecimentos, referências e informações que lhe permitirá entender o mundo em que vive, o lugar que ocupa nele e, de quebra, escrever para os outros com propriedade. Isso tudo e mais o dom da boa escrita – uma habilidade que algumas pessoas sem diploma possuem, e outras diplomadas em jornalismo simplesmente não têm.

Por outro lado, tampouco acho que o curso seja inútil. A formação básica pode ser rasa, mas é apenas a porta de entrada para que cada um, seguindo seus interesses e curiosidades, escolha em que seara irá se aprofundar. Faculdade nenhuma é suficiente. Acima de tudo, o que considero fundamental no curso é a oportunidade de reflexão. De pensar o jornalismo de forma crítica, ver o que existe por trás da notícia, descobrir as implicações e limites éticos da profissão – aprender, enfim, que a atividade profissional do jornalista é imbuída de responsabilidade social, e tem conseqüências. O aluno leva isso consigo em todas as suas escolhas futuras. Quem não foi aluno e tem facilidade para escrever pode abrir um blog, produzir textos redondos e até preencher algumas vagas com competência, mas não terá vivido, refletido e crescido com essas discussões, que só acontecem dentro da faculdade.

Mas a razão da minha indiferença é outra. Acredito que a própria competitividade do mercado se encarregará de neutralizar o impacto da novidade. A oferta de mão-de-obra sempre foi abundante, e os grandes veículos lançam mão de diversos filtros para escolher seus profissionais entre milhares de interessados. Isso significa que o nível de exigência é alto e só os melhores passam pelo funil. O fim da exigência pode até aumentar o número de pessoas que tentam seu lugar ao sol, mas quantas delas, sem diploma, terão condições de chegar lá? Só aquelas que souberem se preparar para a disputa de outras maneiras, correndo por fora. Serão essas pessoas em número suficiente para que os jornalistas diplomados se sintam ameaçados?

Thiago Lasco de Magalhães, de 33 anos, é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero

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