O valor da descrição no jornalismo policial
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O valor da descrição no jornalismo policial

Redação

22 Novembro 2010 | 16h50

Em um dos exercícios do curso, eu e mais quatro focas fizemos a análise de um caderno especial sobre a situação atual do México diante do narcotráfico. Publicado em maio de 2010, México em Guerra foi realizado em conjunto pelo repórter Fausto Macedo e pelo fotógrafo Evelson de Freitas, que passaram dez dias entre Cidade do México e Juárez, que fica na fronteira com o Texas e é uma das cidades mais atingidas pela guerra imposta pelos narcotraficantes.

Conversamos com Macedo para saber como havia sido o processo de apuração para as reportagens e como ele havia se preparado antes de viajar. O repórter nos contou que, durante os dez dias anteriores à viagem, pesquisou sobre a situação do México lendo reportagens publicadas recentemente sobre o assunto e buscando informações junto ao consulado mexicano no Brasil. Como era a primeira vez que ia ao México, Macedo queria chegar ao país com o máximo possível de informações e com alguns contatos que poderiam render boas fontes.

Chegando a Juaréz, no entanto, o que mais contou para o repórter foi a capacidade de observação e isso fica claro ao ler as detalhadas descrições presentes nas reportagens, como a que pode ser vista no trecho abaixo:

“Corpos sangram entre a patrulha 10627, da PF, e a 367, da Polícia Municipal de Juárez. O sangue escorre pela rua em declive e acompanha o traçado da guia da calçada. O vento forte não dá trégua. Castiga os mortos e levanta as mantas brancas emborrachadas que os cobriam. Uiva e joga areia para o alto. Cinco metros separam os dois carros da polícia, o da PF à frente, vidros furados, três pneus no chão porque teve bala para todos os lados. Um federal está caído junto ao para-choque, de costas, braços abertos esticados. A cabeça partida ao meio. Um pouco mais atrás, ao lado do carro da polícia municipal, três uniformizados, quase amontoados.”

Para Macedo, essa preocupação em ser minucioso nas descrições é algo que falta no jornalismo policial de hoje. “O repórter que vai a um lugar desses não pode fazer jornalismo declaratório, somente citando autoridades. Ele tem que fazer o leitor entrar no cenário que está presenciando. Meu objetivo era mostrar que eu estava presente no México e vivenciei aquela situação”, disse.

As descrições do repórter enriquecem o texto e dão rosto às vítimas da guerra do narcotráfico no país, que muitas vezes são tratadas como meros números em matérias que citam a quantidade de mortos naquele mês ou ano, mas não se interessam em mostrar seus nomes, idades ou profissões.
A lição que ficou desse exercício é que tão importante quanto fornecer ao leitor informações exatas é fazer com que ele entre na atmosfera do fato no momento em que este aconteceu. Só assim o jornalismo é capaz de oferecer não um amontoado de dados, mas boas histórias, que merecem ser contadas.

Vanessa Corrêa, de 26 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP)

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