Onde estão os personagens que entrevistamos
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Onde estão os personagens que entrevistamos

Redação

22 Novembro 2010 | 12h22

O curso vai chegando ao fim e, de repente, já me vejo fazendo uma retrospectiva das experiências que vivi. Minha primeira entrevista interessante foi com um morador de rua. Andava pelo centro, no dia 7 de setembro, em busca de uma pauta legal, quando Eduardo Silva se aproximou de mim e estendeu o braço: “Calma. Eu não estou aqui pra roubar, não, viu?”

Debaixo de uma garoa bem fininha, eu e minha amiga, também jornalista, começamos a conversar com ele. Como já tinha ideia de fazer matéria sobre pessoas que vivem nas ruas, tirei o bloquinho e comecei a anotar.

Ele contou a vida toda. Veio para São Paulo de pau-de-arara, conseguiu trabalho em empresa de transporte e se casou. Tudo correu bem até 1994, ano em que sofreu um acidente que o obrigou a colocar pinos em diversas partes do corpo. Foi afastado por invalidez. Sem recursos e sem receber o dinheiro que lhe era de direito, foi parar na rua.

A história toda me parecia muito crível. A cada duas frases ele dizia: “Eu posso ser preto e pobre, mas eu não minto, não.” A pauta surgiu, de fato, quando ele falou do fim do sofrimento – em seis dias voltaria para a terra natal, Pernambuco. Iria em um ônibus, organizado pela prefeitura, junto a outros nordestinos. Todos de volta pra casa.

“Aí está a pauta”, disse minha amiga depois da conversa com Eduardo.

Eu o agradeci pela atenção e combinei um segundo encontro, para o caso de surgirem outras perguntas. Escrevi num papel: “Amanhã, 8 de setembro, às 18 horas, estação Anhangabaú. Encontro com Nayara.” Marcado. “Estarei aqui ao lado da banca”, disse ele depois. Colocamos o lembrete em um plástico e ele o guardou no bolso de trás da calça jeans suja, após jogar a certidão de nascimento, molhada e em pedaços, no chão.

Para lá fui com meu conterrâneo, o foca Tiago Rogero. Mais cedo, eu o acompanhara em sua apuração: camelôs ilegais ao lado de postos da Polícia Militar. Esperamos até as 18h40. Nada. Tudo bem, pensei. Eu já tinha informações suficientes. Era só achar pessoas que também voltariam para casa e descobrir que programa era esse da Prefeitura.

Na segunda-feira, a decepção. Não havia nenhum ônibus com destino a Pernambuco naquela semana. Eduardo passara por lá há muito tempo e nunca mais voltara. Só havia um ônibus rumo a Alagoas. Mas ninguém poderia falar comigo, segundo a assessora.

Obviamente, a pauta caiu. Parti para o plano B (estrangeiros na rua) – que também não deu certo; congoleses e filipina nada disseram de interessante na frente de assessores. Daí veio o plano C: a arquitetura da exclusão – pontos do centro construídos para evitar a presença de moradores de rua.

Depois de entrevistas, surpresas e improvisos, firmei nessa. Até que ficou interessante, mas tudo poderia ter sido melhor. O texto já foi escrito, corrigido, devolvido e relido. Só que eu ainda penso no Eduardo. Será que ele voltou mesmo pra casa?

Nayara Fraga Sampaio, de 24 anos, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas)

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